quarta-feira, 21 de abril de 2010

Benfica na Corda Bamba

As Acções são partes do Capital duma qualquer Sociedade Anónima onde, como por exemplo num Banco, os Accionistas, possuidores das Acções, têm maior ou menor representatividade nessa Sociedade, consoante o número de Acções que detenham da mesma. As Obrigações são títulos de crédito emitidos por uma Sociedade e depois adquiridos por entidades singulares, empresas, particulares, investidores etc. A subscrição das Obrigações, reveste uma forma de empréstimo dos adquirentes à sociedade emitente durante um período de tempo determinado e, mediante o qual, recebem um Juro pré-estabelecido que normalmente lhes é pago semestralmente. No final do prazo, em regra 3 ou 5 anos, a importância que investiram é restituída ao titular das Obrigações. Enquanto o Capital Social constitui um bem da Sociedade, as Obrigações são dívida. Um Accionista é um co-proprietário, tem direito aos lucros se os houver. Um Obrigacionista é um credor, recebe o Capital investido mais o Juro.

Quanto aos riscos, naturalmente as acções andam na corda bamba, flutuam ao sabor das cotações, enquanto as Obrigações são mais seguras, tem reembolso e uma taxa de juro garantida desde que, obviamente, a entidade emissora tenha solvabilidade na data do seu vencimento.

Vem isto a propósito de, na habitual imprensa afecta ao clube do regime, estar a ser vinculada a ideia que o actual bom momento desportivo se “estendeu” ao mundo dos negócios. O lançamento dum EO (Empréstimo Obrigacionista) estaria a ser um sucesso, tão-somente pelo facto da procura ter duplicado a oferta. Normalmente acontece, sempre que o marketing é bem feito, o que foi o caso. Já quanto à eventual subida das cotações das Acções, o facto pouca relevância tem para o Balanço visto que, na Contabilidade, o valor das mesmas é sempre lançado pelo seu valor nominal. No caso do clube em apreço, o valor do Capital Social era no último ano de 75M€ correspondendo a 15 milhões de acções. Em finais de Dezembro, uma estranha operação de reestruturação do Passivo, conseguiu rapar os restos das sociedades detidas pela SAD para depois, serem incorporadas no próprio capital, emitirem novas Acções, fugindo assim ao famigerado artigo 35. É o que se chama em gíria, tirar dum bolso e meter no outro ou, em linguagem jurídica, fazer negócio consigo próprio, a dupla representação, em que a pessoa age em representação de duas partes como foi o caso.

Custos: Enquanto uma emissão de Acções tem custos reduzidos, já no lançamento dum Empréstimo Obrigacionista, eles são muito relevantes. Voltando ao caso do EO de 40M€ da Benfica/Sad, as despesas com a colocação da Oferta atingem 1.475M€. É necessário pagar uma elevada taxa aos bancos que publicitam a operação, bem como, suportar comissões pelos títulos vendidos. Depois, semestralmente, ainda há que contar com os juros que serão creditados nas contas dos investidores e, no final do período, em 23 de Abril de 2013, a obrigatoriedade de lhes devolver os valores investidos. Se sobrarem 30M€, curiosamente o valor do passe de Di Maria, já será muito bom.

Situação financeira: O Passivo do clube aumentou desde 2002 (83.966M€) até aos actuais 340.728M€ a 31 de Dezembro de 2009. No dia em que esta crónica sair, o clube estará a liquidar o anterior EO de 20M€. Além disso, tem um programa de Papel Comercial a cumprir com o BES no valor de 38M€. Os Direitos televisivos estão vendidos até 2013 e não vemos, excepção feita aos dirigentes do Benfica, possibilidade de chegar aos ambicionados 40M€ (?!?), valores muito elevados para este pobre país de opereta. Publicidade e Namings são já Proveitos Diferidos. Os valores dos Custos com Pessoal são astronómicos. As quotizações pouco subiram em relação à época anterior. Dos anunciados 190.000 sócios, mais de 1/3 pagam um valor reduzido (são sócios isentos, menores, correspondentes, reformados, atletas, etc.). O total dos Proveitos Operacionais foi de 47M€ o que não dá nem para os salários do plantel principal, os Custos Operacionais atingiram os 60M€ e os resultados Operacionais rondaram os 30M€ negativos. Os Activos, graças à tal, no mínimo estranha, operação de emparcelamento (o termo é meu) de Capitais e Acções atingem valores que confortam o Passivo mas não são valores realizáveis. A CMVM lava daí as suas mãos. A Sociedade, que responde sozinha pelo reembolso no fim do prazo, nem sequer possui notação de risco (rating), os investidores ficam entregues à bicharada. A tal história da bolinha que, entra ou não entra, assume aqui um papel decisivo. Ah! Hoje em dia, saber circular nos túneis, também é muito importante.

Antigamente a noção de Activo estava relacionada com o conceito de património. Hoje, um Activo é um bem duma sociedade ou empresa, do qual se espera, um benefício económico futuro. Entram então aqui os tão ansiosamente aguardados, Proveitos Extraordinários, a venda de 2 ou 3 jogadores do plantel principal. Por isso, temos dito nestas crónicas que, os Activos das SAD’s, nomeadamente o imobilizado, embora tenham um valor contabilístico (veja-se o exemplo do Boavista), não geram nem representam fluxos de caixa, dinheirinho vivo, o tal Cash-Flow, aquilo com que se compram os melões. Assim, de truque em truque, do aumento artificial de Activos para esconder Passivos, dos sucessivos empréstimos para tapar empréstimos a que, os ilusionistas desta Companhia Circense, já nos habituaram ao longo da última década, podemos concluir que o Benfica continuará por muito tempo a dançar na corda bamba.

Até para a semana

4 comentários:

Invictus disse...

Meu caro amigo JOSE LIMA, muitos parabens, esta um comentario fenomenal e até eu que nao percebo nada de economia estou a ficar mestre com estes seus comentarios, sim sr. muitos parabens.

Filipe Costa Pinto disse...

Gostei muito da analise que apesar de ter alguns termos técnicos, está bem escrita e muito acessível, dá para perceber a explicação do que na realidade se passa no clube com nome de bairro de lisboa.
Já agora vá ao blog:
http://misticadodragao.blogspot.com/
e diga lá se isto (o que lá está exposto) tem pernas para andar ou não.

JOSE LIMA disse...

Caro Francisco Pontes
Precisava saber mais pormenores, nomeadamente como se processou a saída do atleta do anterior clube. Por exemplo se estava na situação de desempregado, ou se rescindiu por mútuo acordo etc.. Quanto à dúvida sobre a data, devemos considerar que o que conta é a época desportiva que vai de 1 de Julho até 30 de Junho do ano seguinte. Vou estudar melhor isto, não conhecia a notícia. Abraço

Raymond disse...

Thanks for using my photo. Just for the records to achieve the license rules:

Photographer: Raimond Spekking
Source:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tightrope_artist_Cologne_1.jpg?uselang=pt
License: cc-by-sa-4.0
http://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/