É um dilema clássico. Uma vez alcançada a vitória, como continuar na senda do êxito? Após uma temporada em que a sede de títulos tudo alimentou, como manter a ambição uma vez a sede satisfeita?
Creio que no futebol, como na vida, o continuarmos a lutar com a mesma paixão, mesmo atingidas as principais metas e objectivos a que nos propusemos, depende da nossa capacidade de encontrar novos estímulos para o fazer, numa constante (re)descoberta de e para nós mesmos.
Na história do futebol houve muitas “grandes equipas”, mas apenas um punhado delas logrou manter o ritmo anos a fio. Poderíamos falar do Real Madrid de Di Stéfano, do Benfica de Eusébio, do Bayern de Beckenbauer, do Ajax de Cruijff ou do Milan de Sacchi. Equipas que, após conquistarem tudo o que podiam conquistar, dispuseram-se a fazer o mesmo no ano seguinte…e no seguinte…mantendo assim intacta a aura de conquistadores. Como o fizeram?
As circunstâncias não foram idênticas em todas as equipas referidas, mas 2 factores são verdadeiramente transversais:
- Durante esses anos de conquista manteve-se um núcleo duro de jogadores de nível superlativo (como Di Stéfano, Puskas e Gento no caso do Real Madrid ou Beckenbauer, Muller e Houness no do Bayern), ao redor do qual se foi renovando a equipa e acrescentando novo talento, que colherá o testemunho dos veteranos e fará a transição para a geração seguinte (Karl Heinz Rummenigue foi o exemplo perfeito de tudo isto).
- O compromisso dos jogadores com os respectivos clubes era total. Não se trata apenas do facto de a maior parte das equipas que referi terem existido numa era em que a realidade das transferências era radicalmente diferente, e havia mil e um entraves ás mesmas. Não; aos jogadores dessas equipas quase nem se lhes ocorria mudarem porque sabiam e sentiam que já estavam na melhor equipa da Europa (não raras vezes do Mundo); que já estavam no topo. Pensar em mudar para onde? Para quê?
Hoje em dia, como sabemos, não só as leis do futebol se alteraram radicalmente como a quantidade de dinheiro a circular neste desporto é infinitamente superior; e que apesar de clubes como o Manchester United, o Bayern ou o Liverpool manterem intacto o seu estatuto, não podem presumir de poder competir com um Real Madrid ou um Chelsea nos ordenados que podem oferecer aos seus atletas. A tentação e o interesse do jogador em fazer as malas é uma quase inevitabilidade, e a perspectiva de o manter contrariado não é do agrado de nenhuma das partes.
Nós Portistas sentimos na pele essa realidade no Verão de 2004. Flamejantes Campeões Europeus depois de no ano anterior termos metido a Taça UEFA no bolso; tivéssemos nós o poder financeiro (e pertencêssemos nós a uma Liga mais rica e competitiva) para poder reter a espinha dorsal daquela equipa e retoca-la em pontos-chave, e poderíamos perfeitamente ter lutado pela Champions (conquista-la é uma lotaria para todos os clubes. Todos!) por mais 2 anos. Não que o clube não o tenha tentado, servindo-se do dinheiro que entrou em caixa (Diego, Luís Fabiano…), mas uma equipa não se (re)faz de um ano para o outro, e a juntar a isto infelizmente descobrimos o outro lado do êxito: a “morte” pelo mesmo; o relaxamento competitivo, palpável tanto na equipa como no clube, que abafou o imenso investimento feito (já de si só parcialmente acertado). E descobrimos como, uma vez chegados à elite, quão difícil é manter-se na mesma. Não é uma realidade a que um clube português (mesmo o F.C.Porto) esteja habituado, e sentimo-lo.
A um nível naturalmente diferente, Jorge Jesus deparou-se com os mesmos problemas na preparação desta temporada. Deixando-se engolir pela onda de entusiasmo que assolou há um ano a nação Benfiquista e foi decisiva na conquista do (merecido, apesar de todas as manobras nos bastidores) campeonato, confundiu a realidade da Liga Portuguesa com a da Elite Europeia, perdeu o norte e no caminho desnorteou a equipa. Tendo também perdido 2 unidades fulcrais, apressou-se a tentar contratar jogadores que pudessem ocupar de imediato os lugares dos que partiram (com o intuito de também cumprirem as mesmas funções), sem primeiro se interrogar se tais jogadores existiriam. Entre uma quebra psicológica que se alastrou à equipa e uma desordem táctica que a desarrumou (já só quase no final da 1ª volta se estabilizaram ambas as situações), foi o suficiente para dar ao F.C.Porto uma (tudo aponta) decisiva vantagem na corrida pelo título.
Virando agora a análise para este F.C.Porto de Vilas boas, importa tentar perceber o porquê da descida de rendimento da equipa após a paragem de Natal (que quiçá já havia começado em Dezembro). É sempre arriscado fazer este tipo de análises, não dispondo nós dos dados da equipa técnica, mas creio que podemos distinguir aqui 3 causas:
- Relaxamento competitivo. Sim amigos, leram bem. Sei que é demasiado cedo para tais coisas, e que é impensável bastar marcarmos 5 golos ao Benfica para “morrer de êxito”, quando ainda só agora entrámos na 2ª volta; mas não nos enganemos, estamos num campeonato em que é objectivamente possível vencer os clubes ditos pequenos jogando pouco. Vilas Boas sabe-o, os jogadores sentem-no, e o calendário tem favorecido esta mentalidade (e a consequente ocorrência de desastres nas Taças como frente ao Nacional e ao Benfica).
- A Liga Europa. Também aqui não nos enganemos amigos, os picos de forma são tudo menos um mito, e isso faz parte da planificação da temporada. Villas-Boas olhou para o calendário e seguramente projectou a equipa para se apresentar forte não agora, mas frente ao Sevilha. Lembram-se como há 2 anos o Porto de Jesualdo ia eliminando o Manchester de Cristiano Ronaldo na Champions? E da pouca diferença entre ambas as equipas que transpareceu, e que a muitos surpreendeu? O que aconteceu foi que o Porto chegou aquela eliminatória no pico de forma, enquanto o Manchester chegou ainda a caminho da mesma. Ambos chegaram exactamente como os seus treinadores haviam projectado, e Alex Fergusson apostou tudo para o sprint final da temporada. Esperava naturalmente que a mais valia dos seus jogadores acabasse por fazer a diferença na eliminatória (e no 2º jogo a diferença acabou por se chamar Ronaldo), mas a verdade é que por muito pouco as contas não lhe saíram furadas, pois o Porto apresentou-se muito forte. Isto foi nos quartos de final; nas meias, diante do Arsenal, já nem parecia o mesmo Manchester que havia defrontado o Porto; muito mais rápidos, fortes e pressionantes; aí sim, o Manchester já estava a carburar em pleno, como Fergusson seguramente previra. Só o Barça o conseguiu deter.
A única coisa com que Vilas Boas seguramente não contava foi a praga de lesões que nos privou de Falcão e Álvaro Pereira. Tudo aponta para o regresso de ambos em Sevilha, mas ninguém garante em que estado…
- O melhor conhecimento da nossa equipa (os seus automatismos e processos de jogo) por parte dos nossos adversários. É uma inevitabilidade das equipas vencedoras, em qualquer campeonato: são estudadas até à exaustão, e é só uma questão de tempo até os adversários darem com a “tecla” para as bloquear. No nosso caso, situa-se na saída da bola desde a defesa (1ª fase de construção), e são os momentos em que mais sentimos a falta de Álvaro Pereira; o Uruguaio não só era quem partia com a bola controlada desde a defesa como metia velocidade no jogo da equipa (no passado, José Bosingwa cumpria esta função desde o lado direito). Sapunaru é mais defesa que lateral, e possuiu características muito diferentes; Emídio Rafael, ainda que sem a alta rotação de Álvaro poderia ter assumido esse papel, mas o azar roubou-nos o jogador quando este se começava a afirmar. Sobram pois os centrais para iniciar a 1ª fase de transição, e aqui está (literalmente) o centro da questão; Bruno Alves fazia passes de 50m para os avançados de olhos fechados; Rolando é um óptimo central (ainda que não consiga ser o patrão de uma defesa), mas não possui tais atributos, e Maicon ainda tem de perceber que não é por ser rápido que pode sair com a bola controlada sempre e quando lhe apetece. Algumas equipas já o haviam ameaçado, mas Jorge Jesus concretizou-o e explorou o mais possível este handicap da equipa, ordenando uma pressão muito alta para forçar o erro sempre que o Porto tentava sair para o ataque. Provavelmente nem ele imaginava que as coisas lhe saíssem tão bem, mas ele sabia muito bem o que tinha de pedir aos seus jogadores para fazer. Não resta pois ao F.C.Porto encontrar alternativas para o seu circuito de jogo.
Pep Guardiola deparou-se com um dilema semelhante há dois anos (o ano de todas as vitórias para o Barcelona): não demorou muito tempo até os adversários perceberem que aquele futebol maravilhoso passava invariavelmente e obrigatoriamente por Xavi Hernandez (e só daí para Iniesta e para os demais), pelo que a táctica em todos os jogos passou a ser “tapar” o pequeno espanhol, a fim de criar um curto circuito no jogo do Barça na fase de construção. Claro que na esmagadora maioria dos casos o Barcelona continuava a vencer os jogos, mas o problema estava lá, e Guardiola não o ignorou. Percebeu que a resposta passaria pelos centrais (é possível tapar-se simultaneamente a subida dos laterais e de um pivô como Xavi, mas com isto os centrais ficam completamente libertos), e descobriu no regressado Gerard Piqué o homem certo para desempenhar a tarefa de iniciar o jogo da equipa. Suprema ironia: livre desta “amarra”, Xavi (e consequentemente o Tiki Taka) tornou-se ainda melhor.
Otamendi, que não jogou para a Taça, poderá ser a nossa resposta. O Argentino tem perfil de líder, é rápido, lê bem o jogo, vê-se que prefere jogar em antecipação, e tem óptima capacidade de passe. Com o regresso de Álvaro Pereira mataremos dois problemas de uma assentada.
Ronaldo e Messi – Vou-vos ser sincero: detesto comparar jogadores que, salta à vista de todos, são muito diferentes um do outro (até o próprio papel que cada um tem nas respectivas equipas difere bastante), mas numa altura em que o tom das comparações entre ambos atinge níveis ensurdecedores, revolta-me que em praticamente todas as análises feitas se continue a passar por alto uma simples evidência: Messi possui o ADN de um número 10; Ronaldo possui o ADN de um Extremo. Ambos fizeram a formação e iniciaram a carreira nessas posições e ambos desempenham actualmente funções distintas sem que nenhum deles esconda as suas origens: Ronaldo é Ronaldo quando lhe pedem para correr com a bola desde um dos flancos para o centro; aí, desequilibra um jogo de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Messi, tanto tempo a actuar como falso extremo, foi “promovido” por Guardiola a actuar como falso ponta de lança (aproximando-o o mais possível do centro…) e é vê-lo a jogar, assistir e a marcar como se não houvesse amanhã.
Quem joga num dos flancos do terreno de jogo é dono dessa porção de terreno; Quem joga no meio é dono do campo inteiro. É uma verdade de La Palisse Futebolística. Ronaldo necessita receber a bola em determinadas zonas do terreno (e preferencialmente de frente para a baliza) para poder influir no jogo da sua equipa, enquanto Messi consegue (ou melhor, “sabe como”) faze-lo desde qualquer zona. Por isso, quando ouvirem alguém dizer que “Messi parece mais jogador que Ronaldo” não se sintam indignados, é mesmo verdade. Por uma simples questão “genética” tem mesmo de o ser. Agora, será Messi melhor que Ronaldo? Sinceramente, acho que empatam…



2 comentários:
Como teu amigo vou ser muito sincero. Onde é que foste buscar esta:
"Otamendi, que não jogou para a Taça, poderá ser a nossa resposta. O Argentino tem perfil de líder, é rápido, lê bem o jogo, vê-se que prefere jogar em antecipação, e tem óptima capacidade de passe."
Quando eu vou ao Estádio (onde tenho uma visão total de tudo o que se passa no relvado) deparo-me com um Otamendi muito nervoso e que bate em tudo o que se mexe, para além de ainda estar muito lento.
Grande abraço
Caro Mito
Embora já tivesse lido há dias o seu artigo não o comentei com a profundidade que merece.
Está de facto muito bom e, na parte que diz respeito ao jogo para Braga, até "acertou" em cheio na prestação que Otamendi poderia desempenhar.
Abraço
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