sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Em verdade vos digo

Há nomes que dizem tudo e outros que não dizem nada. Há inclusive nomes puros, verdadeiros espelhos dos seus titulares, e outros tão falsos como o Iago de Otelo. Quis o destino que a minha primeira – quem sabe a única – crónica aqui no Mística ficasse marcada por um nome, uma sequência de quatro palavras que diz muito sobre o estado em que nós, Portistas, nos encontramos. Sim, porque não se pense que isto da onomástica é ciência exacta.

Nem mesmo nos apelidos parece haver grande correspondência, senão vejamos: Mário Bolatti era o El Gringo, cognome que só por si não fazia adivinhar o estilo pachorrento testemunhado por quem o viu jogar com a camisola do Porto – e como o lugar dos gringos é em Itália, eis que nos apressamos a garantir outro craque para a mesma posição, El Perro Prediguer.

Pois não é que o Petit no deste jovem argentino parece fazer muito mais sentido em português do Porto que no seu original das Pampas? De facto, o imobilismo quase eucaliptal do imberbe trinco é facilmente mais associado ao luso perro que a um qualquer canídeo de quatro patas, até porque de pitbulls e outros que tais já tivemos a nossa dose.

Mas desenganem-se meus amigos se pensam que vos venho para aqui falar de tristezas, pois os tempos não estão para isso. O momento é de euforia, isso mesmo, euforia como há muito já não a sentíamos – desde Maio, para ser mais exacto, o que no calendário Portista equivale a uma eternidade.

O real propósito destas palavras é tão só recuperar quem esteve na origem deste, como dizer em bom futebolês, novo ciclo, que atravessamos: Ruben Micael, pois claro, quem havia de ser? Com ele em campo, Belluschi reaprendeu a fazer passes de morte. Com ele em campo, Fernando recuperou a dinâmica tentacular que o caracteriza. Com ele em campo, Falcao deixou de desperdiçar golos fáceis. Que diabo, com ele em campo até Mariano se desinibe e marca golos monumentais. Não será por acaso que o Deco veio logo agora anunciar a sua vontade de deixar a Selecção logo após o Mundial – e desta vez deve ser verdade, já que não foi O PATO a dar a notícia.

O Professor não se cansa de repetir como parece jogar há muito com os companheiros, tal é a naturalidade que exibe a toda a hora. Eu arrisco a ir mais além: para mim é como se estivesse cá desde sempre, num lugar só seu, e como se os outros, esses sim, fossem chegando aos poucos ao seu convívio. E tudo isto apesar de, e não é pouca coisa, o nome que carrega desde o berço. Surpreendidos?Então leiam o que se segue:

Ruben só por si não apresenta nada de novo - nome moderno que na década de 80 parece ter estado em voga mas que entretanto saiu das listas de preferência dos futuros papás; Micael é o primeiro toque de originalidade, principalmente se considerarmos que o rapaz vem da Câmara de Lobos e não da maior ilha dos Açores. Da combinação dos dois nasce o invulgar conjunto por que é conhecido no mundo da bola. O que me interessa verdadeiramente é o que ainda falta: Freitas. Freitas? Então o rapaz tem o apelido do mesmo conceituado professor de Direito que aqui há uns anos quase nos arredava da Champions com um dos seus imponentes pareceres jurídicos? Mas tu queres ver que…? E o que sobra? Sim qual o último nome do artista? Ressurreição? Ah, este é o que salva todo a estrutura, dirá o observador mais descuidado. Não, meus amigos, este para mim é até o que mais rapidamente contradiz a sua verdadeira missão. Então quem é que ressuscitou ao terceiro dia? Se Jesus é Cristo, Micael não pode ser outra coisa que não o Anticristo – referências a Von Trier à parte. Pois não foi ele que mal assinara e já revelava as provocações do Messias no túnel do Juízo Final?

Em verdade vos digo: se alguém poderá travar a subida de Jesus ao céu, pelo menos este ano, esse alguém é o humilde e bisonho Ruben, o anti-herói por excelência, a personagem a quem em tempo de Fé tão arreigada poderá lançar as sementes do ateísmo nos nossos corações, ele que conseguiu abalar a crendice em sucessivas seitas brasileiras lá por terras madeirenses. Por enquanto, já superou três provações: a da estreia, a do Dragão e a dos clássicos. Faltarão em bom rigor mais duas para acreditarmos que o calvário terminou – o da equipa e o nosso: a da Champions e a da regularidade. Tudo cumprido, será em júbilo que o veremos ascender ao Olimpo, em Junho lá por terras do Adamastor. Nada mau, para quem nem sequer se pode gabar de ser filho de Deus.

5 comentários:

Pedro Silva disse...

Caro Pedro, este é o 1º de muitos textos da tua autoria, pois a escrever com esta qualidade podes ter a certeza de que te irei chatear muito mais vezes para escreveres no Mìstica.

Gostei imenso da forma original como abordaste a contratação do Rúben Micael.

Grande abraço e saudações Portistas!!!

Dragaopentacampeao disse...

Ruben candidata-se fortemente a próximo alvo a abater.

Um Abraço

Pedro Silva disse...

Meu caro amigo Dragão, mas disto ninguém tem duvidas...

Se não for o CD da Liga que condena os jogadores sem provas e a pedido do Presidente do Benfica, há-de ser o Javi ou qualquer outro que lhe partirá uma perna.

Grande abraço e saudações Portistas!!!

Sérgio de Oliveira disse...

Excelente !



Um abraço

Manifcp disse...

Os meus parabéns Pedro !!!!!!!!!!!!
Tenho a certeza que Carlos Queirós, vai convocar o Ruben para o Mundial...
E por falar em Carlos, aeroporto da Portela, espinha dorsal da selecção Nacional, Jorge Batista, Sic, estalos ao vivo, tudo isto me é familiar, e tem um denominador comum...
Coincidências, só Coincidências !!!!!!!