António Salvador terá repassado na sua memória todo o passado recente do clube; anos de luta, de crescimento sustentado, de como Jesualdo e Jesus embalaram a cria e lhe forneceram as bases futebolísticas. E como olhará agora orgulhoso para esta Senhora Equipa, que sob a mão de Domingos atingiu o seu Zénite (será?).
Eliminatórias épicas como esta devem fazer-nos reflectir sobre as dinâmicas pelas quais se cose o futebol actual, que apesar de menos bonito é seguramente mais competitivo. Antigamente, sempre que uma equipa dita pequena enfrentava um dos denominados colossos Europeus, a derrota por goleada era algo de natural e expectante, dado o enorme fosso (real e mental) existente. Parecia que as equipas caíam sob o mero peso dos nomes das Estrelas adversárias. Com o advento da uniformização competitiva, reduziu-se em muito esse fosso e abriu-se espaço para os (verdadeiramente) bons Treinadores se converterem num elemento desequilibrador ao nível dos Extremos de antigamente.
Falo dos Treinadores que, mais do que treinarem uma equipa, moldam-na ao ponto de se tornarem o seu principal rosto. Pelo caminho, implantam no Clube métodos e rotinas que poderão ser aproveitadas pelos seus sucessores (caso estes possuam capacidade para tal).
Hoje, olhamos para Mourinho ou Guardiola e percebemos imediatamente a sua influência no ADN das suas equipas e no próprio discurso dos seus jogadores (que os admiram invariavelmente). Fala-se muito dos métodos inovadores que ambos trazem para os seus clubes (Guardiola quase provocou um terramoto em Barcelona quando anunciou o fim dos estágios que antecedem os jogos), mas não se fala o suficiente da empatia que criam com os futebolistas - no caso de Guardiola porque é um homem inteligente e conhece como ninguém os cantos à casa e no caso de Mourinho porque possuiu verdadeiramente a capacidade de faze-lo em qualquer lado - a ponto que, quando abandonam os clubes, é como arrancar-se a raiz de uma árvore à volta da qual toda a equipa cresceu.
Visionando o jogo da Supertaça Europeia, tive uma profunda sensação de estranheza quando vi a entrada em campo dos jogadores do Inter. Todos eles transitaram do ano passado, e havia apenas uma alteração relativamente ao onze finalista da Champions (Stankovic por Pandev), mas foi como observar um quadro imponente e imediatamente reconhecível…e contudo sentir que algo estava fora do sítio, como se se tratasse não do original mas de uma cópia. Ao fim dos 90m, concluí que o Campeão da Europa nem chegou a subir ao relvado. Não devo ter sido o único…
Poder-se-á apontar a ausência de Mourinho como principal causa do debacle? Também. Mas convém lembrarmo-nos de 2 coisas: Primeiro, estamos no início da temporada, pelo que ainda é impossível aferir o real valor de uma equipa; Segundo: este Inter venceu tudo na época transacta, e como todas as equipas nestas condições incorre no risco de morrer de êxito. Seria tudo mais fácil com a presença do seu Treinador Campeão? Sim, mas não esqueçamos que há algo que Mourinho nunca realizou: Vencer tudo (como fez no F.C.Porto e Inter), permanecer no clube, morrer de êxito, e depois vencer tudo novamente. Esta é a façanha omissa do currículo do Treinador Português, e ele sabe-o; como também saberá que se o conseguir no Real Madrid, aí sim, será eterno.
Claro que uma Equipa de Autor, por si só, não é garantia de êxitos, e o expoente máximo disto será o Arsenal de Arséne Wenger, que ano após ano apresenta equipas que enamoram pelo seu futebol; onde o dedo do treinador é imediatamente reconhecível a cada troca de bola, tabela, desmarcação e remate, mas cuja ausência de títulos ameaça tornar-se também parte integrante da imagem do Treinador (isso sim, quem gosta de futebol não pode apontar rigorosamente nada ao Manager Francês).
Para completar este enorme quadro, esclareça-se que a existência títulos também não é sinónimo de empatia: Jesualdo Ferreira foi sempre criticado no Dragão por uma questão de estilo, mas a verdade é que foi a existência do mesmo e a fidelidade que o treinador prestou ao seu modelo que permitiu a conquista do Tetra-Campeonato (e que posteriormente conduziu ao esgotamento do próprio modelo).
Treinadores assim, por possuírem tantas idiossincrasias, deixam marcas inconfundíveis nas equipas por onde passam, e a história demonstra-nos que é possível (e legítimo) vencer com qualquer um deles.
2 comentários:
Caro Mito. O seu texto é excelente, obrigado por ser nosso colega nesta "bancada".
Abraço
Novo post! Se der para dar uma olhadela agradecia.
http://futeboldeopinioes.blogspot.com/
Já agora bom post!
Abraço
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