A eloquente demonstração de força colectiva e de classe do FC Porto durante mais de meia hora (até ao golo), na qual subjugou o seu mais directo rival na classificação, abre o caminho para a conquista do "tricampeonato" - ainda faltam 18 jornadas, mas este é o raciocínio induzido pela exibição portista. O clássico decidiu-se numa notável iniciativa individual de Quaresma, contudo seria redutor considerar este triunfo obra da criatividade do fantasista camisola 7. Ele é expressão da maior valia colectiva e inspiração de quase todas as unidades do conjunto de Jesualdo Ferreira, interpretando com perfeição as contingências deste embate e a natureza do adversário. Considerando aqui a segunda parte de contenção dos forasteiros - com o recuo estratégico no terreno, procurando diminuir a margem de risco -, que acabou por ajudar a viabilizar uma re
acção do Benfica, então com muito mais iniciativa, na verdade só os remates de meia-distância e os lances de bola parada constituíram verdadeira ameaça à supremacia atrás enunciada. Também a defender o FC Porto foi quase sempre um conjunto com razoável eficácia. No cômputo geral, o mérito dos dragões e a justiça deste resultado são, pois, inequívocos.Curiosamente, coube ao Benfica dar o primeiro sinal de perigo, denunciando um desacerto no sector recuado portista que o tempo viria a desmentir. Nessa fase inicial, alguma liberdade de movimentos concedida a Rui Costa e um maior ímpeto encarnado chegaram a causar calafrios aos dragões. Porém, estes depressa souberam controlar esses focos de perigo: Paulo Assunção ocupa e anula o espaço do camisola 10 encarnado, enquanto Bosingwa começa a ganhar os duelos com Rodríguez. A partir do quarto de hora de jogo, o FC Porto já consegue impor a cadência do jogo, fazendo da grande mobilidade dos seus avançados uma arma difícil de contrariar. Em transições bem desenhadas e diversificadas, coloca extremas dificuldades aos encarnados, que se vêem empurrados para o seu meio-campo. A segurança de Paulo Assunção e a leitura clarividente de Lucho a coordenar o seu meio-campo e a organizar as jogadas de ataque sobrepõem-se no tabuleiro da Luz, mas o virtuosismo no desenvolvimento das jogadas do FC Porto estendia-se às alas, com Quaresma - mais pelo lado direito, mas a alternar frequentemente - e Tarik a colocarem grandes dificuldades à marcação. No topo do bolo, Lisandro manteve a sua bitola habitual, uma unidade de altíssimo rendimento, a explorar todos os espaços de intervenção possível e que até a defender (nos momentos de maior aperto) foi de enorme utilidade. Sem surpresas no plano táctico, ficou claro que ambas as equipas sabiam claramente o que esperar do adversário, mas só o FC Porto soube apresentar argumentos eficazes. O fogoso desempenho dos alas uruguaios na partida de quarta-feira frente ao Milan não teve sequência. Maxi quase não existiu - Fucile conhece-o bem… - e Rodríguez pareceu acusar algum desgaste. Também n
esse capítulo o conjunto azul e branco pareceu respirar mais saúde… Quando Quaresma marcou, já o FC Porto desperdiçara três oportunidades flagrantes para abrir o activo. Contudo, o golo aconteceu em boa altura, a poucos minutos do descanso. A feição do desafio modificou-se na segunda metad, como seria de esperar. O Benfica fez subir os seus blocos, procurou fazer a pressão mais à frente, teve mais posse de bola e, consequentemente, mais iniciativas de ataque. Tal como no início da primeira parte, é Nuno Gomes quem desperdiça a melhor ocasião para marcar logo a abrir a segunda. As facilidades não se repetiriam. A meio desta etapa complementar, Camacho tenta dar força ao seu ataque, prescindindo de Katsouranis para fazer entrar Cardozo. Rui Costa recua um pouco, e é Nuno Gomes quem passa a jogar nas costas do ponta-de-lança paraguaio. O Benfica atacava com mais unidades, mas não com mais discernimento. Posteriormente, apostou em refrescar a equipa com Di María e Adu (o norte-americano obrigaria Helton a efectuar a defesa mais importante da noite), mas sem nunca conseguir abrir brechas no muro defensivo nortenho. O FC Porto contra-atacava pela certa e dispôs de situações para ampliar a vantagem, mas a directiva principal era a de manter a concentração e não cometer lapsos comprometedores - sabendo-se, inclusive, das boas pontas finais do Benfica. Desta vez, faltou capacidade para dar a volta à situação adversa. Perante as dificuldades físicas de Tarik, Jesualdo recorre a Postiga e serve a equipa com Mariano e Bolatti para os últimos 20 minutos. A sua capacidade de guardar a bola agudiza o estertor final da águia. A vitória estava entregue à melhor equipa no relvado. Quase dois anos depois do desaire com o Sporting, o Benfica volta a perder em casa, Jesualdo averba o seu primeiro triunfo como adversário na Luz e estreia-se a derrotar Camacho. Um êxito memorável, certamente.Saudações Portistas!!!
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