sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Crónica de um Desastre anunciado

A eliminação do Sporting, da Taça desta temporada, não foi mais do que o corolário natural das péssimas prestações que o clube vem apresentando nas últimas duas épocas. Com apenas um campeonato conquistado este século (2001/2002), o clube parece atravessar um período de “belenização” com as contas a negativo. No final de Junho a Sporting SAD tinha um passivo total de 173 milhões de euros, um crescimento de 21,4% (30,5 milhões) face ao mesmo mês do ano anterior. No Relatório e Contas é possível ver que o Sporting pagou de juros no ano passado, mais de 2 milhões de euros. A SAD parece seguir o mesmo padre-nosso do vizinho do outro lado da circular, conforme se pode verificar através deste excerto do Relatório: “No âmbito do contrato de abertura de crédito em conta-corrente com o BES e Millenium BCP foram prestadas garantias de créditos de bilheteira, créditos de garantia e créditos de passe”, refere o documento que sobre este último ponto acrescenta: “estão incluídos os direitos desportivos detidos ou a deter pela Sporting SAD relativos aos jogadores de futebol que tenham com ela celebrado um contrato de trabalho”

Já no 2º semestre desta época a Sad anunciou em comunicado à CMVM a redução 50% do seu Capital Social, ou seja, o capital com que a sociedade foi constituida passou a valer apenas metade. O Capital Social é uma massa patrimonial que integra o capital próprio e a sua importância tem a ver com a autonomia financeira duma empresa. Consequência imediata desta redução de capital é a maior dificuldade na negociação de créditos ou realização de operações de Tesouraria a longo prazo. Com Proveitos Operacionais, excluindo transacções com jogadores, de pouco mais de 34M€, e Custos Operacionais de 41M€ torna-se evidente que a sociedade já depois de se desfazer dos activos que ainda possuía, caminha para a uma situação previsível de falência.
 
Numa sociedade comercial ou industrial, normalmente, os ACTIVOS são compostos por valores facilmente transaccionáveis, ao contrário dos clubes ou SAD’s onde a maior fatia está nos ACTIVOS INTANGÍVEIS, tais como o estádio, terrenos e, uma coisa que ninguém sabe muito bem como se pode mensurar, o valor da “marca”, esses bens são dificilmente vendáveis. Naturalmente que o valor da marca Real de Madrid é maior do que a do Carcavelinhos, assim como, os direitos televisivos da Premier League serão substancialmente mais elevados do que neste pobre país de opereta. A Liga Sagres só pode ser comparada às ligas da Áustria, Bélgica, Dinamarca, Escócia, Grécia, Holanda, Noruega, Polónia, Roménia, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia e Ucrânia (ordem alfabética) e, não me consta que os clubes participantes nos campeonatos destes países arrecadem grandes receitas com as TV’s. O resto é para enganar os sócios.

Se no capítulo desportivo a situação é muito má, no aspecto financeiro é, então, um verdadeiro desastre. O “Projecto Roquette”, do inicio do Século, contemplando actividades não propriamente indicadas para um clube desportivo, tal como o Alvaláxia XXI e, sucessivas gerações de dirigentes impreparados sem o mínimo entendimento do que é a gestão duma Sociedade Desportiva, levaram a secular colectividade a uma situação quase sem retorno.

É conhecido que os Proveitos das Sad’s se resumem aos Lugares Anuais e Bilheteira, Transmissões Televisivas, Patrocínio e Marketing, Competições da UEFA, e Vendas de Passes quando o rei faz anos. Naturalmente que apresentando depois, compras feitas sem nenhum critério de qualidade, os valores dos salários disparam aumentando o Passivo Total (valor do Passivo Corrente + o Passivo do Financiamento + os Proveitos Antecipados) ano após ano, tornam os rácios de solvabilidade (independência da empresa face aos credores, representada pela fórmula: Capital Próprio sobre Passivo Total X 100) um autêntico desastre. Interessante é sublinhar que a SAD, por força da presença dum bancário na administração, devia acautelar melhor os interesses da sociedade e arrepiar caminho enquanto é tempo.

Já hoje (estou a escrever às 21 horas do 13 de Dezembro) leio no Record que a Sporting SGPS que é uma Sociedade do Sporting/SAD, comprou 5 milhões de acções, pasme-se, à Sporting SAD, que é detida maioritariamente pelo Sporting/Clube! Fez bem a José Eduardo Bettencourt, ser amigo de Luís Filipe Vieira e, provavelmente do Sportinguista Dominguinhos de Oliveira, empregado do dito cujo dono, do Circo da Luz. É mais uma operação designada como “fazer negócio consigo próprio”, logo proibida pelo Código das Sociedades Comerciais ou, como eu costumo dizer, “tirar dum bolso e meter no outro”.

A CMVM, como habitualmente, está a marimbar-se para esta operação que visa enganar os pacóvios que ainda acreditam naquilo. Sugere-se que as duas Sociedades da 2ª Circular, amigas do seu amigo, unam as suas Companhias Circenses e dêem em conjunto, um grande espectáculo de Natal com receitas, naturalmente a reverter, para o pagamento das cláusulas de rescisão dos seus treinadores.

Até para a semana

2 comentários:

Pedro Silva disse...

Meu caro Lima o Sporting há muito que accionou o botão de auto destruição.

Já há quem diga que aquilo está a ficar igual ao Clube da Cruz de Cristo que anda á rasca na Liga Orangina e no que a Finanças diz respeito nem os famosos pastéis de Belém os safam. O Sporting vai peio mesmo caminho.

E o actual Treinador ajuda á Missa com as suas opções doidas e mania que tem um grande Plantel onde pode rodar os Jogadores sem perder qualidade de jogo.

Quanto á CMVM, esta entidade é como os Polícias de Transito, só multam quem lhe apetece e quando lhe apetece.

Grande abraço

f tavares disse...

Caro Lima
Como sempre brilhante esta crónica
Abraço
ft