Tratava-se da crónica de um adeus anunciado. O de Bruno Alves, capitão do F. C. Porto durante anos e uma das referências do clube, até por se tratar de um atleta à Porto que foi formado no clube.
No outro dia, vasculhando a blogosfera deparei-me com um texto de um adepto portista que manifestava a sua surpresa pelo facto da saída de Bruno Alves não ter sofrido a contestação por parte dos adeptos que mereceram saídas anteriores como as de Quaresma ou Lucho só para citar alguns exemplos. O facto de ninguém ter questionado os números, a importância de B. Alves no balneário e na equipa, e os consequentes danos que a sua saída possam causar… Talvez, tal não se verifique, porque ao contrário de outras vendas, esta era mais inevitável e tem sido já preparada quase há dois anos. B. Alves deve muito ao F. C. Porto, foi cá que se formou como jogador e que cresceu, depois passou pelo tirocínio natural ( e por vezes excessivo) deste clube de ser emprestado sucessivamente a outras equipas por forma a ganhar rodagem e quem sabe um dia regressar ao clube. Depois de boas épocas na Grécia treinado por Fernando Santos, teve a sua oportunidade para regressar no reinado de Co Adrianse no clube. Nessa sua grande oportunidade, B. Aves pouco jogou e quando fez ficou marcado pelos adeptos como sendo um jogador descontrolado e sem capacidade para jogar no Porto… O ambiente chegou a ficar mesmo insustentável, quando num jogo com o Benfica B. Alves perdeu a cabeça e agrediu com uma cabeçada o avançado Nuno Gomes, prejudicando a equipa deixando-a em inferioridade numérica…
Tudo parecia indicar que B. Alves estaria de saída e que nunca se afirmaria num clube de topo como o Porto…Chegou Jesualdo Ferreira e tudo mudou. B. Alves, mesmo ainda visto com alguma desconfiança pelos adeptos, teve a confiança total de Jesualdo que o moldou e viu nele um capitão e um defesa que poderia ser um dos melhores da Europa se bem trabalhado e se se conseguisse reciclar toda aquela agressividade para o terreno de jogo e para moldar um defesa duro e implacável na marcação e no espaço aéreo… Passou de mal amado a capitão e a uma das maiores referências do clube. Capitão e com propriedade o líder de causa portista.
Depois de ter estado tão perto de passar ao lado de uma grande carreira, B. Alves pôde finalmente potenciar as suas características e tornar-se um central de topo, titular da selecção portuguesa.
Mas isso não o satisfez. B. Alves queria mais, e não somos ninguém para o recriminar. Natural que tivesse ambições na carreira de poder evoluir ainda mais… O problema é que a sua explosão no panorama internacional se deu numa idade em que já não se pode aspirar a que grandes clubes internacionais invistam muito capital a adquirir os direitos de um activo que poderá ter rentabilidade puramente desportiva e num espaço máximo de 4 ou 5 anos apenas. Não é o mesmo oferecer 30 milhões por um Pepe que tem 23 anos, ou oferecer por um B. Alves que tem 29, mesmo que seja reconhecido por todos que é um central que teria lugar em grande parte das melhores equipas da Europa.O Porto nunca fechou as portas da sua saída nem lhe cortou as pernas, mas como é óbvio deixou claro que tinha que defender os seus interesses, e que B. Alves não poderia sair a preço de saldo, sob pena da mensagem que se passaria para o mercado e até mesmo porque seria um péssimo acto de gestão, e falamos de uma Sad cotada em bolsa.
Aí começou-se a cozinhar uma saída anunciada…Fosse porque B. Alves não perdia uma oportunidade para dizer que queria sair, quase de forma até desesperada, como se fosse preciso estar sempre a dizê-lo para que os clubes se lembrassem dele…a isto juntamos um pai que falava demais e que atrapalhava qualquer tipo de abordagem que o clube quisesse ter no assunto… Um pai que chegou a fazer ameaças de que o filho não jogava mais no clube, para depois dizer que afinal até podia cumprir o contrato até ao fim e sair a custo 0 depois…
O Porto renovou-lhe o contrato e deu-lhe condições económicas invejáveis, tornando-o um dos mais bem pagos. B. Alves tinha um bom contrato, num grande clube, no clube que o formou, tinha ainda a braçadeira de capitão, um símbolo da causa portista que tinha sido transportada no braço de grandes senhores do futebol como: Jorge Costa, Baía, Lucho, João Pinto, Fernando Gomes. Para além de tudo isso B. Alves era idolatrado pelos adeptos que se de início o trataram com desconfiança, depois se renderam e época após época o tratavam como um ídolo… Havia ainda a possibilidade de, a terminar a carreira no clube, continuar ligado à instituição como tantos outros ex-jogadores e assim assegurar já um caminho profissional, quando a carreira de futebolista chegasse ao fim. B. Alves tinha assim todas as razões do mundo para se sentir feliz no seu clube do coração e de querer ficar. No entanto havia a obsessão por sair, para provar a sua qualidade lá fora…De tanta pressão que fez, por vezes pode até ter complicado a saída para um clube de maior valor desportivo e uma liga maior. O Porto não teve culpa que o Barca preferisse um jogador de nome impronunciável do Shaktar a B. Alves na época passada…Tal como não tem culpa que os grandes clubes da Europa estejam a apertar o cinto e prefiram investir somas mais avultadas em jogadores mais jovens que lhes possam dar maior rendibilidade tendo uma perspectiva mais de longo prazo.
B. Alves merecia jogar numa grande liga? Claro que merecia e tinha talento para isso. Mas o Porto não o poderia oferecer de graça.Tudo isto encaminhou a que o Porto sempre esperasse a tal proposta que nunca chegava…e depois de tanta pressão foi desde há duas épocas preparando-se para perder B. Alves, e os próprios adeptos foram-se convencendo dessa inevitabilidade… B. Alves de tanto pressionar e de tanto falar que queria sair, ficou refém dessa vontade… as propostas milionárias de grandes ligas não apareceram e o Porto acabou por negociar pelo único clube que aceitou fazer uma proposta minimamente coadunante com o valor de mercado de B. Alves, vinda do Zenit… O Zenit que disputa o campeonato russo será o clube onde B. Alves jogará. Não o Barcelona, Chelsea, Real Madrid, mas sim o Zenit…
A obsessão de sair, levou-o a ter que sair não da forma que gostaria…Obrigou-o a sair para um clube inferior ao F. C. Porto, onde poderá encher os bolsos mas onde dificilmente encontrará a projecção que o F. C. Porto lhe proporcionava…e certamente não encontrará a felicidade na Rússia da mesma forma que poderia encontrar jogando no clube do seu coração e vivendo na sua Póvoa do Varzim.
Ainda teve que levar com o desdém de todos perguntando-lhe se não era um passo atrás na carreira…B Alves para se defender teve que falar na questão económica, e quando chegado na Rússia para defender a opção, falou que acompanhava o Zenit há muito tempo e que sonhava ser treinado por Spaletti…Triste ter que conseguir encontrar motivações e inventar desculpas para uma solução que o Bruno sabe bem que foi a de recurso… Acompanhava o Zenit há muito tempo por onde? Pela transmissão dos jogos do campeonato russo que não existem em Portugal? Geralmente os jogadores sonham ser treinados por Mourinho, Capello, Ferguson, Wenger…Bruno sonhava ser treinado por Spaletti…? Sonhos bem pouco ambiciosos afinal…
Bruno saiu a dizer que foi um bom negócio para todos…Convinha dizer isso e neste momento para o seu bem estar é melhor que ele próprio se convença disso…mas na verdade, já se sabe, não existem almoços grátis, e nunca saem todos a ganhar, há sempre algo que se perde pelo caminho…
O Porto perdeu um grande capitão e um central de excelência? Correcto. Mas nada que já não tenha perdido antes…já se habituou a perder grandes jogadores e a ter que os substituir. Para além do mais, perdeu um jogador que já na época passada tinha-se apresentado desmotivado, havendo alguns jogos até que parecia que jogava com a cabeça noutras paragens…
O Zenit ganha um grande defesa central, mas para isso teve que deixar ficar no Porto 22 milhões de euros por um central que tem já 29 anos. O mais provável é não ter retorno económico dessa aposta…Há ainda o facto de a adaptação ao futebol russo ser uma incógnita e já ter exemplo de outros grandes jogadores que passaram pelo Rússia sem se adaptarem e que se sentiam desmotivados naquela realidade.
Apesar de tudo o Zenit desta relação tripartida, é até o 2º que mais ganha com este negócio… O maior vencedor é sem dúvida o F. C. Porto. Consegue arrecadar num tempo de vacas magras, 22 milhoes de euros, num ano em que não disputará a champions e em que fez um forte investimento no plantel. Vende um jogador pelo qual não teve que despender qualquer verba, pois é um produto da formação. Conseguiu manter o jogador nos seus quadros naquela que foi a fase mais alta da carreira do atleta e vendeu-o agora que se inicia uma fase em que a idade começará a pesar.
Acima de tudo, mandou uma mensagem forte para o mercado, de que o Porto mesmo não participando na champions não faz saldos, e quem quiser comprar no Porto, tem que vir preparado para deixar bom dinheiro.
O que distingue a boa aceitação desta saída relativamente às do passado são simples de ser entendidas. No caso de Quaresma, o facto de Quaresma estar no topo da sua forma e o presidente ter garantido aos adeptos que ele só sairia por um determinado valor e nunca menos, e afinal vendeu-o por um valor inferior. Os adeptos estavam preparados para a sua saída, mas não para uma novela em que no final foi o Porto a ter que ceder e a vender por menos do que se falava.
No caso de Lucho, esse digo mesmo que foi o negócio que mais me custou a aceitar. Porque tratou-se do percurso inverso ao de B. Alves. Lucho também tinha a ambição de jogar num grande campeonato e teve chances de sair para uma liga maior. O Porto teve propostas de valores semelhantes aos que ofereceu posteriormente o Marselha, mas sempre rejeitou vendê-lo ( e assim não permitindo a Lucho jogar numa grande liga como o seu talento merecia) afirmando tratar-se de um símbolo do clube que só sairia para um gigante europeu. Lucho conformou-se com a ideia e aquando da sua renovação de contrato afirmou mesmo que os seus objectivos passavam por ser o capitão do F.C. Porto, clube que adorava, e terminar a carreira de azul e branco. Quando Lucho dava essa manifestação de amor pelo clube e se disponibilizava para terminar a carreira no clube, eis que o clube o empurra para o Marselha ( longe de ser o tal gigante que se falava ser a única hipótese para se ponderar a sua saída, e ainda para mais, saindo para uma liga inferior àquelas que Lucho gostaria de experimentar) por necessidades de tesouraria após negócios falhados…Tratou-se Lucho como se fosse um jogador qualquer e que tinha que ser vendido enquanto desse algo a ganhar ao clube…Esquecendo-se do valor incalculável que Lucho tinha quer como capitão quer como centro de todo o jogo do F. C. Porto… O clube sentiu muito a sua falta e ainda hoje se tenta reerguer e encontrar soluções à altura para o substituir. E aqui não se trata de um jogador que tivesse vontade de sair, mas sim um jogador que queria acabar a carreira aqui, como capitão. Um exemplo de liderança, de profissionalismo e de classe. Essa perda doeu. A de B. Alves foi diferente, era anunciada…o próprio tornou a sua saída uma inevitabilidade…mesmo que tenha acabado por rumar a paragens que provavelmente não eram a sua ambição quando começou essa demanda de querer deixar clara a sua vontade de sair…
Não Bruno, neste negócio não saíram todos a ganhar…Uns ganharam mais que outros. O Zenit ganhou um bom reforço, o Porto ganhou um excelente encaixe financeiro e conseguiu vender um jogador de 29 anos que não tinha propostas de valor semelhante por parte de nenhum gigante…vendeu um jogador que tinha um pai que falava demais e que por vezes desestabilizava o dia a dia do clube, e vendeu um jogador que por vezes exagerou na forma repetitiva e quase exaustiva como manifestava que estava de saída…Quem perdeu foste tu Bruno. O Zenit vai pagar mais? Sim, mas para quem já tinha um grande contrato no Porto, não é isso que fará uma grande diferença na tua vida. No final da carreira, vais olhar para trás e imaginar com poderias ter ganho tantos mais títulos no Porto, como capitão de um clube que te formou e que é aquele que tu gostas…Pensarás que poderias ter acabado a tua carreira num clube com adeptos que te adoravam e transportando a mística naquela braçadeira que transporta mais história que todos os clubes da liga russa juntos…Em vez disso, ficaste refém de uma situação que tu próprio criaste…Anuncias que queres sair, esperando que saias para algo muito melhor e depois acabas a ter que sair, meio que desiludido e se calhar, até relutante, para um clube que está longe de ser o teu sonho…Podemos ter sonhos muito estranhos, mas creio que o teu claramente nunca foi ser treinado pelo Luciano Spaletti e acabar a carreira a jogar no Zenit em vez de acabar em grande como capitão de um clube bicampeão europeu e mundial…
2 comentários:
Dos dois negocios o Fcp não se saíu nada mal.
Os atletas querem ganhar mais.
Legitimo !
Os clubes tem que viver,o Fcp é o clube em minha opinião que melhor o faz na Europa ........
Atletas com amor á camisola ?
Já não há...............
Foram as melhores soluções quer financeiras quer despostiva pq qd um jogador fica contrariado não rende o mesmo. Não ah nada a criticar. Profissionalismo sem motivação não é uma boa combinação. Se calhar tanto um como outro até deviam ter saído mais cedo.
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