quarta-feira, 18 de maio de 2011

You’re welcome to Dublin (análise ao adversário)

Na quinta-feira dia 5 de Maio o futebol português assistiu a um momento histórico, praticamente impensável: ver uma final só entre equipas portuguesas. Mas surpresa não é o FC Porto marcar presença em Dublin. Muitos acreditaram que era possível, para além de não ser nada inédito ver os dragões chegarem ao jogo decisivo de uma competição europeia. Inédito sim é o adversário: O SC Braga.

Vale a pena recordar, no entanto, que o futebol português já esteve perto deste acontecimento memorável. Em 2002/03, época de excelente memória para os dragões, o Boavista quase garantiu uma inédita final portuense. A primeira vez que uma final teria equipas de uma mesma cidade. Não aconteceu, e nesse ano recordo-me de ficar no ar a ideia que o futebol português jamais teria segunda soberana oportunidade de ter duas equipas numa final da UEFA. Nos anos seguintes assistiu-se, por vários motivos que não interessa a este post, ao declínio do Boavista, a única equipa, para além dos três grandes, com possibilidades de fazer uma gracinha na UEFA. Nunca, mas nunca repito, penso que alguém esperou ver uma final como a da próxima quarta. Não pelo FC Porto, que entrara já nesta Liga Europa como favorito à vitória. Mas ter como adversário uma equipa que nenhuma vez se arrogou a ser a quarta grande do futebol português (a rivalidade desse “título”, normalmente, é repartido entre Boavista, Guimarães e Os Belenenses) é algo único. É verdade que o Braga é uma equipa com várias participações nas competições europeias. È verdade também que o Braga é a quarta equipa portuguesa que já venceu oficialmente uma prova da UEFA (a Taça Intertoto). Mas por mais argumentos que busquemos, por mais razões lógicas que tentemos achar, pensar que o adversário da próxima quarta-feira, o adversário da quinta final europeia da história do FC Porto é o Braga ainda é coisa que nos espanta.

Uma breve análise do historial do Braga na Europa:

É pequena a história europeia do Braga. Mas este ano esta história engrandeceu, quase que diríamos agigantou-se, com a presença dos arsenalistas na Liga dos Campeões (tornando-se assim o quinto clube português a participar em todas as grandes competições da UEFA) para além da presença na sua primeira final europeia.

A primeira participação do SC Braga numa prova europeia remonta à época 1966/67, estreando-se na já extinta Taça das Taças. Começou bem o Braga ao derrotar na primeira eliminatória o AEK de Atenas. Cairia, no entanto, na segunda eliminatória contra o Vasas Gyor da Hungria, não sem no entanto dar luta: derrota por 3-0 em Gyor, vitória insuficiente por duas bolas na cidade dos Arcebispos.

Só mais de dez anos depois o SC Braga voltaria a uma competição europeia, desta vez à Taça UEFA, na época 1978/79. De novo cairia na segunda eliminatória: depois de passar facilmente o Hibernians de Malta (resultado agregado das duas mãos foi 7-3) caiu com duas derrotas frente ao West Bromwich Albion de Inglaterra.

Na década de oitenta só por duas vezes o Braga se qualificou para as competições europeias. E das duas vezes não passou da primeira eliminatória, sempre às mãos de equipas inglesas. A primeira na época 1982/83, na Taça das Taças, contra o Swansea (derrota por três bolas em Londres e vitória escassa por uma bola em Braga). A segunda na Taça UEFA de 1984/85 contra o Tottenham de Londres (derrota por 3-0 na cidade de Braga e pesada derrota por 6-0 no White Hart Lane).

Depois destas épocas o Braga teria que esperar treze anos para voltar a viajar na Europa. E logo em duas épocas consecutivas: 1997/98 e 1998/99. Na primeira época disputaram a Taça UEFA, chegando aos oitavos-de-final contra o Schalke 04. Na época seguinte o Braga teria a honra de ser o representante português na última disputa da Taça das Taças. Perderia na segunda eliminatória contra o Lokomotiv de Moscovo, e assim se despedia o futebol português de um troféu apenas ganho pelo Sporting Clube de Portugal, e mal perdido para o FC Porto na famosa final de Basileia de 1984, muito por culpa dos critérios arbitrais tomados pelo juiz dessa partida.

Só a partir de 2004/05 o SC Braga se tornaria presença regular na Taça UEFA. Nas duas primeiras épocas o Braga ficou-se sempre pela pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da agora renovada competição uefeira. O primeiro desaire aconteceu frente ao modesto Hearts da Escócia. Na época seguinte frente ao agora também pálido Crvena Zvezda de Belgrado (campeão europeu em 1991, assinale-se). Abro parêntesis para contar uma pequena curiosidade pessoal sobre esta partida. O primeiro jogo foi em Belgrado, e recordo-me de ao mesmo tempo estarem outras partidas com portugueses a decorrer. Ouvíamos no rádio o relato e, de Belgrado, o comentador desesperava-se com a passividade do Braga frente a um adversário perfeitamente ao alcance. Defendiam os arsenalistas em vez de se lançarem ao ataque e dominarem um adversário de recursos modestos. Parecia uma equipa cobarde o Braga, tal como parecera na época anterior contra os humildes escoceses. Isto, porque no seu banco, a comandar o Braga, estava um homem que apesar de saber muito de futebol não tem como qualidade a coragem: Jesualdo Ferreira. E aqui lanço uma pergunta fora do contexto aos leitores: acreditam que com Jesualdo Ferreira ainda no banco do Porto alguma vez chegaríamos a esta final de Dublin? É uma questão que deixo ao vosso critério

Só na época seguinte, 2006/07, é que o Braga (e um pouco o futebol português, veja-se o meu anterior texto publicado aqui no blog) começou a deixar a sua marca. Depois de eliminar o Chievo Verona na eliminatória de acesso à fase de Grupos, o Braga ficou em terceiro nesta ronda mas mesmo assim ganhando acesso aos dezasseis-avos-de-final, onde passou com mérito o Parma. Nos oitavos reencontrou o Tottenham, sendo de novo derrotado pelos londrinos mas já não goleados. Em 2007/08 os arsenalistas voltam a chegar à fase de grupos da Taça UEFA, conseguindo passar aos dezasseis-avos. Aqui caiem frente ao Werder Bremen, que na época seguinte seria finalista vencido desta competição. A época 2008/09, onde os arsenalistas foram treinados por Jorge Jesus, era até agora a melhor época europeia do Braga. Venceram a última edição da Taça Intertoto, competição reconhecida oficialmente pela UEFA. Deveram esse feito ao, depois de terem entrado na Taça UEFA (foi o último ano em que o torneio teve esta denominação) por esta competição, terem conseguido chegar aos quartos-de-final, onde só por alguma inexperiência foram derrotados pelo Paris-Saint-Germain em Braga por 1-0, tendo antes em Paris empatado a zero.

Na época seguinte surge o treinador que iria levar o Braga à sua melhor qualificação de sempre no campeonato – o segundo lugar. Estreia-se com uma humilhante eliminação na pré-eliminatória da agora renomeada Liga Europa. Domingos não consegue que a sua equipa passe um modestíssimo Elfsborg. Pensou-se então que Domingos pouco tempo de vida passaria em Braga. Enganamo-nos. Domingos não só é vice-campeão com o SC Braga no fim da época como, esta época, fez o impensável. Algo que pensávamos só ser possível numa consola da PlayStation: o SC Braga elimina Celtic Glasgow e, brilhantemente, o Sevilla nas pré-eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões. Aqui mostra alguma da sua inexperiência nas primeiras duas partidas: derrota pesada contra o Arsenal em Londres por 6-0 e derrota na “Pedreira” por três golos sem resposta frente ao Shakhtar Donetsk. Depois o Braga acabaria por fazer 9 pontos, ao vencer consecutivamente o Partizan de Belgrado e vingar-se do Arsenal no Municipal de Braga. Apesar de uma boa pontuação na fase de grupos, que recorde-se já deu a muitas equipas possibilidade de seguir em frente na prova, o Braga cai na Liga Europa. Ao sair como primeiro adversário o Lech Poznan, muitos pensaram que estava perfeitamente ao alcance do Braga, como se provou. Não se esperava certamente o que aconteceu a seguir. Os homens de Domingos, já sem muita da equipa que começou a época, recorde-se, levaram a melhor sobre Liverpool e Dynamo de Kiev, equipas históricas e poderosas na Europa. Depois, nas meias-finais, passam o Benfica. E chegam à final contra o FC Porto, naquela que é a primeira final portuguesa. Vimos história!

As razões do sucesso:
Mas como conseguiu o Braga de Domingos esta gesta inolvidável? Numa breve análise ao feito do Braga, temos que começar por referir a estrutura directiva. Tendo como modelo de gestão o FC Porto, a uma escala mais pequena, a direcção de António Salvador é a primeira a mostrar ambição. Mais, conseguiram uma coisa extraordinária. Conseguiram criar na cidade de Braga, até há poucos anos conhecida como o enclave benfiquista do Norte, uma identificação fortíssima com o clube. De tal modo que, da última vez que o Benfica foi jogar à cidade dos arcebispos para o Campeonato, encontrou um ambiente infernal como não estava habituado, vindo logo o presidente dos vermelhos queixar-se ou choramingar-se - ninguém entendeu bem que sentimento exprimia – de que foram maltratados.

Em segundo lugar, comanda a equipa do Braga um Homem formado no Porto. Ídolo dos Dragões, Domingos moldou a sua ambição à altura da equipa que o formou como pessoa e treinador. Consegue aliar a sua humildade e capacidade de comunicar com os jogadores a uma tremenda ambição de chegar cada vez mais longe, a uma crença na vitória como ainda há poucos treinadores em Portugal. Isso, e a uma perspicácia agora confirmada em perceber os pontos fortes e fracos do adversário. Não estará ao nível dos melhores treinadores mundiais, mas ainda tem um grande futuro pela frente.

Domingos tem o mérito, também, de ter conseguido aguentar os bons resultados mesmo perdendo jogadores importantes no defeso de Dezembro. Porém, a equipa do Braga conta no seu onze com jogadores experientes e com grandes revelações. Destacamos algumas das pedras dos arsenalistas. Na baliza apresenta um guarda-redes seguro, Artur. Este brasileiro já passou pelo exigente futebol italiano, tendo mesmo feito jogos pela Roma. Não singrou em Itália mas trouxe a experiência do futebol italiano, fazendo esquecer Felipe que saiu no mercado de Inverno. Na defesa o Braga conta nas laterais com uma das grandes revelações do futebol português: Sílvio. Este jovem é seguro a defender, sobe bem pelo lado esquerdo e tem um grande remate. Será certamente um futuro jogador de selecção. No meio-campo o Braga conta com aquele que, para nós, é um dos melhores médios do futebol português. Hugo Viana, formado no melhor supermercado de jogadores de Portugal: a Academia de Alcochete. Viana tem um excelente pé esquerdo e sabe passar como poucos jogadores em Portugal. Tem, no entanto, o defeito de ser demasiado lento. Conta, tal como seu colega Miguel Garcia, com a experiência numa final da Taça UEFA. E certamente que ambos querem esquecer-se definitivamente da vergonha que passaram com o Sporting na malfadada final de 2005. Custódio, colega destes e hoje também no Braga, sentou-se no banco nessa final. No ataque do Braga o destaque natural vai para Alan. O brasileiro não foi feliz no FC Porto mas em Braga é ídolo dos adeptos e tem sido fundamental para este ano histórico. Alan é o típico jogador brasileiro de ataque, com finta curta e possuidor de uma boa técnica, pese desperdiçar por vezes bolas fáceis. O seu futebol adapta-se bem à táctica de Domingos, com jogadas pelos flancos onde Alan aparece a importunar os adversários, tentando criar perigo pelas laterais.

Por último, uma palavra para os adeptos do SC Braga. Pessoalmente, nunca simpatizei nem com os dois rivais do Minho. Porém, ao Vitória de Guimarães sempre tive respeito por uma razão: são a única equipa na cidade de Guimarães. Os seus adeptos são apenas do seu clube. Podem ter como segundo clube um dos três grandes, mas o seu coração está sempre primeiro com o Vitória. Com o Braga nunca se passava isso. Até agora. Este ano vi também esse impossível: as ruas de Braga encherem-se de adeptos do seu clube. A maior parte jovens, é certo. Mas é sinal que cada vez mais Braga clube e Braga cidade estão unidos. Muito devido, como atrás afirmamos, à gestão de António Salvador que deu aos bracarenses um motivo de orgulho para a sua terra.

Este é o Braga que o FC Porto vai encontrar na sua quinta final europeia! O Porto é, claro, mais forte, tem melhores jogadores do que o Braga. Mas os arsenalistas especializaram-se este ano em ser tomba-gigantes na Europa. É favorito o Porto naturalmente. Mas todos os cuidados são poucos, naquela que será uma final cheia de emoções. A primeira final portuguesa. Esperemos que seja uma grande final! E que a Taça seja levantada por Helton!

1 comentário:

Dragus Invictus disse...

Boa noite,

Hoje os jogadores, equipa técnica e restante staff/direcção, podem ficar na história do clube, conquistando este ambicionado troféu da Liga Europa.

Eu estou convicto que assim será. Somos favoritos e se estivermos ao nível que estivemos quando defrontamos CSKA de Moscovo, Sevilha e Villarreal, venceremos com maior ou menor dificuldade o troféu.

O meu único receio é o Braga marcar primeiro. Não sou um apreciador do futebol praticado pelo Braga. É um futebol à "Jesualdo", muito construído de trás para frente, e a tentar sair para o ataque maioritariamente em transições rápidas. O Braga apanhando-se a vencer, tem uma organização defensiva muito boa, e uma capacidade de sofrimento tremenda. Basta recordar a forma como eliminaram Liverpool, Dínamo de Kiev e Benfica.

Espera-se uma grande festa no estádio, e que os adeptos se respeitem. Penso que o grande problema de segurança desta final, vai ser o facto de alguns adeptos do Benfica irem ao estádio ver o jogo ... e apoiar o Braga, como ontem vi na TV testemunhos.
Muitos destes benfiquistas nunca foram a uma final, e vão aparecer, para se inteirar do sentimento de lá estar.

Que hoje se faça história, e que o nosso Porto traga o caneco.

Abraço e boa noite

Paulo

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