Mostrar mensagens com a etiqueta Paulinho Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulinho Santos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Só faz falta quem quer estar

O título desta crónica pode parecer tratar-se de uma gralha ou um erro relativamente à expressão corriqueira do “só faz falta quem cá está”. Não é o caso. É propositado. Nem sempre os que cá estão fazem falta. Por vezes até não fazem falta nenhuma, só complicam. É uma frase bonita para valorizar-se o que se tem mas que nem sempre corresponde à realidade. Se quisermos ver por outro lado, só faz falta os que cá estão, mas com isto entende-se estar de corpo e alma. Muitos não estão nem partem, vão estando… E esses realmente não fazem falta nenhuma a uma equipa e a uma instituição.

Tudo isto vem a propósito do soundbyte de uma entrevista dada pelo médio Freddy Guarín, jogador com contrato com o F. C. Porto mas que foi emprestado com opção de compra ao Inter no mercado de Inverno.

Nessa entrevista Guarín para além de reforçar a ideia de que quer ficar no Inter, acaba por ser infeliz quando afirma que James Rodriguez é demasiado bom para Portugal. Não quero estar a crucificar o Guarín, até porque porventura nem quis dar a conotação negativa que as pessoas estão a dar às suas palavras. Pode simplesmente ter sido infeliz na sua forma de se expressar. Custa-me a crer que Guarín seja ingrato para com o país que lhe projectou totalmente a carreira. Um clube que apostou nele, sacrificando um jogador da formação como P. Machado para contratar na altura um ilustre desconhecido do futebol mundial que jogava num modestíssimo St Etiene.

No Porto apesar das mais variadas críticas e dificuldades da adaptação na 1ª época, que o próprio Guarín admite, nunca a estrutura desistiu dele, mesmo quando esse parecia ser o caminho mais simples. Na verdade ele acaba por estar ligado a uma época de sonho do F. C. Porto com AVB ao leme da equipa. Nessa equipa e nessa estrutura Guarín atingiu o topo do futebol mundial e tornou-se ainda mais consensual na selecção da Colômbia e um alvo apetecido pelos clubes das ligas mais endinheiradas da Europa.

Posto isto, não me parece adequado que Guarín se acha demasiado bom para a nossa liga. Pelo menos não será demasiado bom para o F. C. Porto… Prova disso é que foi emprestado com opção de compra, um tipo de prática pouco comum no clube, mais a mais quando a época estava a meio e ele até tinha sido uma figura importante no último título. No entanto, convém que Guarín não se esqueça da sua história. Ele nunca começou as épocas como titular indiscutível. Foi-se tornando titular, até alternando com outro emprestado com opção de compra… Fernando Belluschi.

Agora no Inter, Guarín parece sentir-se no topo do Olimpo. Convém recordar-lhe que em termos competitivos ele deu um passo atrás. Pelo menos a avaliar por aquilo que é hoje a equipa do Inter que pode nem se classificar para a champions e para a equipa do Porto que se arrisca a ser campeã novamente. Um Guarín que chega ao Inter muito por causa do crédito que ganhou no Porto. Saliento bem a última parte… No F.C. Porto. É o peso desta marca e este carimbo de qualidade que faz com que gigantes da Europa se disponham a despender uma verba de 13.5 milhões de euros e receber por empréstimo um jogador lesionado… Porquê? Porque se habituaram a que do F. C. Porto saem grandes jogadores. Se ele alinhasse noutro clube qualquer, provavelmente teria que provar muito mais para chegar ao Inter de Milão.

Sobre a qualidade e sobre saber se um jogador é demasiado bom para um país ou não, isso será sempre discutível. O que sei é que, no caso concreto de Guarín, ele claramente não era demasiado bom para o F. C. Porto. Já estou quase como o Jorge Jesus “nem demasido bom, nem demasiado mau… antes pelo contrário.”

Prova disso é que Guarín se tiver que voltar ao actual F. C. Porto sabe que partirá como suplente tal como partiu em todas as épocas que defendeu a camisola azul e branca. Um jogador que já tem como valor de mercado 13.5 milhões de euros… Ainda assim, Fernando, Moutinho e Lucho não deixam qualquer margem de esperança para a titularidade de Guarín. Já no Inter… Numa liga que deveria ser muito superior… Guarín é titular mal recupera da sua lesão e entra de caras na equipa. Porventura não terá a concorrência que tinha no F. C. Porto. Por isso não deixa de ser engraçado vê-lo a falar sobre a qualidade e as dificuldades no futebol italiano quando é no futebol italiano que ele entra de caras a titular quando no Porto tal não aconteceria, não obstante a sua reconhecida qualidade.

Estas declarações de Guarín deixaram-me a refleti e a olhar para a “big Picture”. O F. C. Porto atacou esta época com uma ideia clara de manter a equipa que tudo tinha ganho na época anterior. Tais planos viram-se furados pela saída surpresa de AVB seguida pela debandada de Falcao. Após estas saídas, os pressupostos e tudo aquilo que se havia prometido ao plantel ruiu, e assistiu-se a um filme em que vários jogadores queriam sair, no entanto, nem saíram nem parecem ter ficado… Foram ficando.

Tal não iliba as responsabilidades de Vítor Pereira e a sua incapacidade como líder em alguns momentos da época e os seus erros tácticos e estratégicos. Assim como não invalida os erros da Sad no que concerne à definição do plantel principalmente em posições como a de ponta de lança. Ainda assim, um jogador do F. C. Porto tem que ter um tipo de compromisso que alguns jogadores não demonstraram ao longo da época. Isso também foi prejudicial para o clube e pode ter minado o grupo de trabalho.

O F. C. Porto é um clube de estatuto internacional, o sonho de muitos. Por isso mesmo custa-me ver um jogador como André Castro cheio de talento e que é produto da casa, que estava cheio de vontade de ficar no F. C. Porto ser emprestado no início da época, para depois ver Guarín a falar da sua vontade em sair, ou de Belluschi de forma bizarra a afirmar que precisava de mais minutos quando até era dos jogadores mais utilizados no plantel, ou ter que esperar mais de meia época para ver o verdadeiro Fernando em campo.

Posso também falar que não gosto de ver atitudes de desrespeito para com o grupo como as que vi de Rolando e Alvaro Pereira, dois daqueles que queriam ter seguido os passos de AVB e Falcao e que parece que também já se acham bons demais para este campeonato. No F. C. Porto deve estar quem quer estar. Não queremos jogadores contrariados ou sequer com a mínima presunção de que são bons demais para estar num clube que tem mais títulos e história do que provavelmente todos eles juntos terão na sua carreira.
Não crítico a ambição profissional e o facto de cada um ter que atender também aos seus projectos e à vontade de garantir uma estabilidade financeira superior. Mas há formas e tempos para esse tipo de coisas e o F. C. Porto nunca foi um clube que cortasse as pernas fosse a quem fosse. Pelo contrário, é dos clubes que melhor trata os seus profissionais, dos clubes que mais os valoriza e que, por isso mesmo, quando estes saem, têm saudades e desejo de voltar. Uns concretizam e são ainda úteis como é agora o caso de Lucho, outros ficam pelo sonho mas não deixam de elogiar a estrutura do clube, como é o caso de Deco que mesmos depois de sair não pára de elogiar o F. C. Porto.

Assim sendo, considero que para a próxima época o plantel deve conhecer algumas alterações. Não apenas a mais discutida que é a do treinador. É preciso demonstrar o que se pretende deste F. C. Porto. Qualidade e competitividade é algo a que já temos estado habituados… mas acho que chegou o momento de pretender outro ingrediente a juntar à receita do sucesso. Mais mística. Mais Porto.

Para isso o F.C. Porto contrariou a lógica da política de contratações dos últimos anos e fez regressar “el comandante” para liderar e dar o exemplo do que é um jogador à Porto. Por isso Paulinho Santos -um jogador que podia ter jogado no Manchester United, Barcelona e outros grandes do futebol mundial, mas que optou por fazer toda a sua carreira no F. C. Porto - passou a fazer parte da equipa técnica. Sentiu-se que essa mística , essa vontade em ser e estar estavam a escassear. Era necessário acrescentar pessoas ao projecto com o perfil e o desejo de passar a tocha para os mais novos sem que esses valores da casa se percam, valores esse , que são a essência deste clube e uma forma de não se perder identidade como vai acontecendo noutros clubes.

Por isso mesmo, e sabendo que o F. C. Porto deve ter que realizar mais valias, tenho o meu desejo para aquilo que considero deveria ser a linha que o F. C. Porto deveria seguir. Não peço uma revolução, até porque as mudanças pelos vistos foram sendo feitas com a época decorrer, mormente com as saídas de Belluschi e Guarín que na altura pareceram-me incompreensíveis mas que se foram por motivos disciplinares ou por motivos anímicos, então merecem todo o meu respeito.

Após a atitude última de Alvaro Pereira, para mim aquele teria sido o seu último jogo com a camisola do F. C. Porto. Até ao final da época deixava que Alex Sandro se habituasse ao lugar que pode vir a ser o seu na próxima época. Deixava finalmente A. Pereira sair para outro campeonato como ele tanto quer.

Outra mais-valia em termos de venda, seria a saída de Rolando. Depois de tantos interesses dos clubes italianos e até de ter arranjado um empresário para tratar da sua carreira por terras transalpinas, aconselhava-o a mostrar, então, que tem de facto mercado e vendia-o. Neste momento não alterava também até ao final da época (a não ser que algo de extraordinário aconteça) a dupla Otamendi x Maicon.

Exemplos como os de Maicon são aqueles que queremos para o Porto. Um jogador que cometeu erros quando chegou, que passou muito tempo pelo banco, que para regressar à titularidade teve que jogar numa posição que não é a sua e assim ser alvo fácil da crítica (quando a culpa era de quem o colocava a jogar deslocado), mas que mesmo assim nunca se queixou nem nunca virou a cara à luta, acabando por ganhar o posto no centro da defesa de uma forma totalmente merecida.

A 3ª saída que prevejo, vai de encontro áquilo que afirmei sobre o F. C. Porto tratar bem os seus jogadores e não cortar as pernas a ninguém. Por isso mesmo o Porto deverá deixar voar aquele que para mim foi a par de Helton o maior exemplo de dedicação e vontade de triunfar e de amor ao clube ao longo desta época. Aquele que mesmo com oscilações, com maior ou menor brilho nunca se escondeu e deixou sempre tudo em campo. O melhor jogador da Liga Portuguesa. Um jogador que é incrível não só pelo que joga mas também pela sua simplicidade e pelo seu carácter.

Falo obviamente de Hulk. Um caso de sucesso no nosso futebol e que mesmo após a saída de Falcao e AVB, quando colocado perante cenários de saída e com vários milhões ao barulho, sempre foi de um enorme respeito para com os adeptos e para com as pessoas do clube que apostaram nele. O sucesso nunca lhe subiu à cabeça nem o fez esquecer-se da sua história e o que ele aprendeu e cresceu no F. C. Porto.

Por tudo isto e por achar que ele em Portugal já fez tudo o que havia para fazer e já nos deu muitas alegrias, acho que Hulk atingiu a maturidade suficiente e já nos deu os títulos suficientes para que agora possa pensar um pouco nele e na sua projecção para outros patamares competitivos e, porque não, também financeiros. Ele fez por merecer isso e sei que levará para sempre no coração o F. C. Porto onde chegou com inteira justiça a capitão.

Substitutos? Creio que os tempos não aconselham a grandes investidas no mercado. Mais do que nada é importante para o F. C. Porto perceber se os que cá estão querem mesmo ficar ou se alguém tem dúvidas. Se todos estiveram com vontade de dar tudo por este clube, então as saídas destes 3 jogadores acrescentadas às mais-valias resultantes de possíveis vendas de Guarín e Belluschi deixar-nos-á numa situação de maior desafogo financeiro.

Importante definir então os objectivos para o plantel. Eu acho que deve passar por dar mais mística a este Porto. Tal passará pela promoção de Lucho a um dos capitães juntamente com Moutinho e Helton que continuarão a desempenhar essa função, mas não só. Após a sangria de médios, chegou a hora de o F. C. Porto apostar em definitivo de um médio que é um jogador do Porto e à Porto. Falo de André Castro. É jovem, tem talento e capacidade para desempenhar as 3 funções no meio campo do Porto e vê na camisola do F. C. Porto uma segunda pele. É deste tipo de jogadores que precisamos. Pode vir a ser o futuro capitão do F. C. Porto.

Para o lugar de A. Pereira, Alex Sandro esteve a ser preparado toda a época. Como opção não seria de descartar o regresso de Miguel Lopes, mais um jogador português que, ainda para mais, poderá valorizar-se se chegar à selecção. Pode fazer as duas laterais, não será de descartar essa possibilidade. Caso contrário será necessário encontrar um lateral esquerdo mais consistente do ponto de vista defensivo. Na lateral direita creio que Sapunaru deixou bem claro que mesmo quando não foi opção que é no Porto que quer estar e ainda recentemente o reafirmou. Como tal, acho que a posição ficará coberta com ele e Danilo.

Para a baliza a aposta em Helton deve ser para continuar, mas não seria nada mau para o balneário se Beto se dispusesse a voltar. Pode ser que possa pedir a P. Bento para merecer o mesmo estatuto de Eduardo que mesmo não sendo titular no Benfica é indiscutível na selecção. O Porto teria a ganhar com a troca de Bracalli por Beto.

Hulk a meu ver já tem sucessor. Chama-se James Rodriguez. Creio que ainda não vimos tudo deste miúdo e que com a saída de Hulk e a passagem do testemunho, será ele o grande desiquilibrador da equipa. Depois ainda temos Varela e Iturbe que terá que explodir na próxima época. Havendo um negócio interessante pode-se tentar contratar outro extremo mas sem grande urgência como a que há para encontrar um ponta de lança. Grande parte do encaixe de Hulk deverá ser canalizado para a contratação de um ponta de lança capaz de pegar de estaca na equipa. Um jogador não apenas para consumo interno como Janko. Deve ser um avançado com qualidade técnica para não necessitar de um 2º avançado por perto. Janko pode manter-se no plantel para ser suplente e entrar em jogos em que se necessite um jogo mais directo. Kleber demonstrou ainda não ter maturidade para jogar no F. C. Porto e deveria rodar para ganhar a confiança que este ano andou desaparecida.

Por último, no que diz respeito à composição do plantel, deixo o maior desejo… Um regresso que acho que não apenas resolve a saída de Rolando como ajuda a reforçar a qualidade, experiência e mística do plantel. Falo de um regresso que tal como o de Lucho gostaria de ver concretizado… O regresso de Ricardo Carvalho.

O jogador está de saída do Real Madrid, é um jogador da casa que sabe o que é ser Porto e sabe bem que valores passar para os mais jovens. Os problemas psicológicos que o têm impedido este ano de jogar mais no Real Madrid seriam resolvidos com o regresso a casa, a uma estrutura que sabe apoiar e criar todas as condições para que os jogadores se possam preocupar em apenas jogar futebol. Carvalho seria um líder mais no balneário e no campo, apesar do seu estilo introvertido. Seria respeitado por tudo o que representa e por ser um dos melhores centrais da história do futebol português.

Vejo-o a ter um papel importante como teve Aloísio na década de 90. Um central com classe e eficaz no desarme que ajudava a crescer jovens centrais como F. Coutro ou J. Costa.

Ricardo Carvalho poderá ser o parceiro ideal para Maicon e poderá potenciar ainda mais as qualidades do brasileiro, ou até de um jovem como Mangala. Para além disso, em termos técnicos, sem lesões, R. Carvalho seria claramente o melhor central da Liga Portuguesa. Seria também uma excelente oportunidade para R. Carvalho calar a boca de muita gente… Falta saber se ele está disposto a abdicar de um salário milionário tal como fez Lucho para poder voltar a casa.

Este seria para mim o cenário ideal para a próxima temporada… E, já agora, e sei que já estou a pedir muito… porque não uma equipa técnica liderada por outro símbolo do clube…? Domingos Paciência é a minha escolha. Acho que seria espectacular para os adeptos. Um plantel com qualidade, uma mescla de juventude e experiência mas com o elo de ligação ao clube como têm Carvalho e Castro, liderados por uma equipa técnica com Domingos Paciência e Paulinho Santos para ser o adjunto do balneário. Não descartaria se necessária a integração de João Pinto na vaga de Paulinho.

No fundo o que peço é um Porto mais Porto na próxima época. Dar uma maior dose de mística à reconhecida qualidade e competitividade do plantel. Tal envolveria ainda mais a massa adepta e faria com que a química entre o plantel e os sócios fosse mais forte do que aquela a que fomos assistindo ao longo desta época, ainda que nos possa valer o título nacional.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A vitória da coragem.

O F. C. Porto treinado por Vítor Pereira para surpresa de grande parte dos portistas (eu incluído) passou de uma situação de ter a liga quase perdida, para neste momento ter uma vantagem de 3 pontos para o Benfica após uma exibição personalizada no Estádio da Luz.

Na projecção do jogo eu pedia a Vítor Pereira que independentemente das tácticas, da escolha de jogadores, que abordasse o jogo com uma postura corajosa. Que fizesse exactamente o contrário do que tinha feito em Alvalade, quando por falta de ambição, se contentou com um empate e deixou o Benfica escapar naquele que, para mi ,teria sido o momento decisivo para perder o campeonato.

Felizmente enganei-me. Vítor Pereira teve o mérito de mesmo sem exibições de encher o olho e com vários equívocos e obsessões estranhas como a de Maicon como lateral direito, de ir ganhando os seus jogos. Também teremos que ser honestos e afirmar que se o Porto está na corrida muito o deve ao facto de Jorge Jesus ter cometido erros grosseiros que ninguém esperaria, devolvendo assim a hipótese de o Porto voltar à luta. Um outro clube, com outra estrutura e outro treinador nunca permitiria que se perdessem 5 pontos de vantagem antes de um jogo que até poderia arrumar em definitivo as contas do título.

Mas com o mal do Benfica pode o F. C. Porto bem… E enquanto eles preferirem olhar apenas para erros de arbitragem (o mesmo clube que passou uma época a dizer que não falaria de arbitragens, e cujo presidente ainda há 3 semanas dizia que a arbitragem estava francamente melhor e que não falaria de arbitragens…), e não repararem nos erros crassos que cometeram… mais o F. C. Porto estará perto de ganhar a Liga.

Hoje, como sempre, o Benfica perde-se em encontrar desculpas para os seus fracassos em factores externos ao invés de ter a capacidade de auto critica para poder melhorar. O F.C. Porto hoje como sempre, apresenta uma estrutura mais forte. Responde no campo. Tem apostas de risco, tem personalidade e carácter.

Vítor Pereira que tanto criticamos parece ter guardado o melhor para o grande momento da época. Nem parecia o mesmo treinador que se contentava com um empate em Alvalade. Ele teve a tal coragem que um campeão tem que ter. Mesmo sabendo que entrava em igualdade pontual, entrou para encostar o Benfica. Mandou a equipa subir e pressionar o Benfica o mais alto possível.

O facto de toda a imprensa e o próprio Jesus desvalorizarem este F. C. Porto só aumentou ainda mais o efeito surpresa que Vítor Pereira quis apresentar. O Benfica esperava um jogo inicialmente táctico de respeito mútuo, mas o Porto partiu logo para cima sem receios. Não foi tanto na forma como Vítor Pereira montou a estrutura táctica. Aí, voltou a insistir no erro de colocar o central em melhor forma do Porto a lateral… No entanto, foi na atitude e na estratégia que demonstrou que, não obstante essas opções, que a ideia era que só a vitória interessava.

Mas o verdadeiro teste de coragem estava para vir… Após o Benfica passar para a frente do marcador, temi o pior. Pensei que a partir dali o Porto arriscava-se a cair a pique. Vítor Pereira contrariando toda a sua conduta recente e o seu histórico, decide agitar o jogo com James bem cedo, não esperando para ver como paravam as modas. Não demorou como de costume a mexer na equipa. Reagiu e colocou as fichas todas. Mais que isso, quando esperavam a substituição típica de trocar o Djalma (com um amarelo e que vinha sendo uma nulidade), eis que Vítor Pereira surpreende tudo e todos e tira Rolando. Mais do que a mudança táctica da passagem de um extremo amarelado para lateral e a entrada de James, foi a mensagem passada para dentro do campo e para os adeptos. O grito de toque a reunir a dizer claramente que o jogo e a liga estavam longe de estar terminados e que o Porto ainda tinha uma palavra a dizer.

Vítor Pereira já com o empate no bolso e com a vantagem anulada no confronto directo, arriscou ainda mais. Foi o Vítor Pereira mais corajoso que vimos durante toda a época. Ele demonstrou que não queria o empate para nada, queria os 3 pontos e arrisca muito (até considerei na altura um risco demasiado grande), tirando Moutinho e mandando Kleber a jogo, deixando a equipa partida num claro 4-2-4 com 4 jogadores de ataque e ainda Lucho a ser um dos dois a meio campo. O risco compensou e a coragem venceu. O golo apareceu de bola parada em fora de jogo, mas adivinhava-se como o cenário mais provável tal a pressão asfixiante do Porto que empurrava o Benfica para trás. O empate até poderia ter surgido de penalti… Mas pelos vistos os mesmos que se indignam com o fora de jogo acham perfeitamente normal e aceitável que Cardozo jogue voley dentro da área. Mesmo em voley seria falta, porque joga duas vezes a bola com a mão. O Porto encostou o Benfica às cordas…Exactamente o contrário do que Jorge Jesus fizera na 1ª volta no Estádio do Dragão. Aí, o Benfica chega ao 2-2 e todos reparamos que se carregasse um bocadinho mais, era provável que até saísse com a vitória… no entanto, Jorge Jesus preferiu ter uma abordagem conservadora e guardar o empate…Logo ele que tem sempre um discurso tão optimista e arrojado. No momento em que o podia demonstrar em campo, preferiu segurar o empate.

Mas esta coragem que é o título deste texto, não se trata apenas da coragem de Vítor Pereira. Refiro-me também à coragem de Pinto da Costa e da estrutura do F. C. Porto que uma vez mais deu uma lição. Independentemente do que venha a acontecer para a frente, deu uma lição.

Basta olhar para o Sporting… Domingos não era sequer contestado e foi precipitadamente despedido… Aquele que fazia parte da solução foi sacrificado como sendo a raiz de todos os males do Sporting.

Pinto da Costa desde o início viu Vítor Pereira a ser altamente contestado, o próprio Pinto da Costa assistiu à forma como a equipa viu esfumar-se as suas hipóteses nas competições europeias, viu a forma como fomos eliminados da taça e como parecia haver um divórcio entre jogadores, massa adepta e treinador.

Quando muitos de nós previam já que o melhor seria a mudança e começar a preparar a próxima época e que esta seria para esquecer. A verdade é que Pinto da Costa nunca desistiu. Não desistiu da Liga, e prova disso foi quando contrata Lucho e Janko, dois jogadores que fogem à política de contratações do F. C. Porto que está mais voltada para o investimento em jogadores jovens. Pinto da Costa e a estrutura F. C. Porto com esses dois reforços demonstram que ainda acreditam que é possível ganhar esta época e que a aposta era para o presente.

Por outro lado, Pinto da Costa nunca deixou cair Vítor Pereira. Tal como noutros momentos, ele deu estabilidade ao treinador contra tudo e todos.

Mas isso também não significou que Pinto da Costa seja cego e não leia os sinais que a equipa dá… Uma pequena revolução foi sendo operada mas sem dar muito nas vistas. Começou pelos jogadores (a mudança mais visível foram as saídas de Guarín e Belluschi, e a entrada de Janko e acima de tudo do Comandante Lucho), mas também e esta é a menos comentada, a mudança na equipa técnica.

Pinto da Costa segurou Vítor Pereira mas não aceitou segurá-lo a todo o custo, fechando os olhos para os problemas. Foram feitas mexidas para que a máquina começasse a funcionar de uma vez por todas. Por um lado, Pinto da Costa desceu ao balneário, mais que uma ve , para demonstrar a um balneário que vinha de uma época de sucesso com AVB, que teriam que respeitar a autoridade de Vítor Pereira e que ele não estaria dependente da vontade dos jogadores. Esse tipo de actuação foi fundamental… Não se pode deixar que os jogadores tomem conta dos destinos do clube e decidam sobre treinadores. Veja-se o péssimo exemplo do Chelsea. No Porto segue-se uma lógica vencedora em que toda a gente sabe quem manda. Presidente é quem decide, treinador está lá para treinar e jogadores para jogar. Não há qualquer tipo de alteração nesta pirâmide nem interferências.

Depois, Pinto da Costa fez ver a Vítor Pereira que a confiança mantinha-se mas que algo tinha que ser feito. E foi. Sem se falar muito nisso (mais uma vez mérito para a estrutura do F. C. Porto que conseguiu abafar bem essa situação), houve uma alteração na hierarquia da equipa técnica. Rui Quinta desaparece do banco, onde era o braço direito de Vítor Pereira e passa para a bancada. Para o seu lugar entra o jovem Filipe Almeida que era o 3º na hierarquia.


Podemos juntar a isto o reforço de Paulinho Santos para a equipa técnica. Grande parte das pessoas julgavam que havia um desinteresse de Pinto da Costa e da sua estrutura pelo que se passava e pela situação do clube, mas a verdade é que, dentro de portas, mudanças estratégicas foram sendo feitas para que os resultados melhorassem, sem que fosse, assim, necessário um corte radical.

O facto de Paulinho Santos entrar na mesma altura do reboliço do Sporting pela demissão de Domingos, foi um timing perfeito. O momento certo. Todos estavam tão entretidos com a novidade Sá Pinto que até brincaram com o ingresso de Paulinho na equipa técnica e disseram que era uma resposta à agressividade de Sá Pinto então contratado para o Sporting…

Esse tipo de graçola e a forma ligeira como trataram do assunto serviu os interesses do Porto. Porque enquanto não se reparava, mudanças iam acontecendo na equipa técnica e ninguém dava por isso. Poderia ter-se alimentado polémica. Falar da desautorização de Vítor Pereira por se colocar um novo adjunto numa equipa técnica que tinha sido escolhida por Vítor Pereira. Nenhum treinador gosta muito que interfiram na sua equipa técnica… Ao simplificarem tudo, foi-se deixando escapar a mudança global. Rui Quinta desapareceu do banco e tal nunca foi questionado a Vítor Pereira e foi dado estabilidade ao clube num momento de algumas mudanças com o intuito de ainda se conseguir lutar pelo título.

Sentiu-se o pulso do balneário e quem acompanha diariamente a equipa fez claramente um relatório sobre o que podia ser melhorado. É importante perceber que um treinador não tem de saber de tudo ou ser o melhor em todas as vertentes. Daí a existência de uma equipa técnica. Nem todos podem ser Mourinho e concentrarem em si grande parte de todas as decisões e serem óptimos em treino, táctica, leitura de jogo, observação, e ainda ser perito em liderança e relações interpessoais. Por isso a constituição de uma boa equipa técnica é fundamental para o sucesso. Não raras vezes vemos treinadores principais da velha guarda a apresentarem excelentes resultados e logo aí as pessoas tendem em desvalorizar o trabalho de um treinador e dizem que só a motivação é que conta…

Não é bem assim… Esses treinadores têm a humildade suficiente para saberem rodear-se de pessoas que dominam novas metodologias e que os podem auxiliar nesse tipo de questões mais técnicas e deixar-lhes a questão da liderança e outro tipo de pormenores mais humanos e menos científicos. Tem que haver esse misto. Por isso Ferguson tem uma carreira tão longa e cheia de sucessos. Ele soube-se adaptar à mudança dos tempos e quando reparou que já estava desactualizado, soube rodear-se de adjuntos capazes de darem um upgrade em termos de treino e até tácticos deixando a parte da liderança e do balneário e a sua gestão para Ferguson.

O mesmo se passou esta época na equipa técnica do F. C. Porto. Não me agradou muito a composição da equipa técnica de Vítor Pereira e por aí também começou uma série de erros no planeamento. O objectivo para n.º 2 seria Bruno Moura, treinador do Santa Clara…Uma vez não assegurado esse objectivo, a solução acabou por parecer de recurso e aposta-se em Rui Quinta que, com todo o respeito, tem um percurso e um perfil totalmente diferente do de Bruno Moura. Um treinador jovem, com outro tipo de formação científica e uma forma diferente de ler o jogo de Rui Quinta.

A escolha de Semedo também me pareceu francamente desajustada. Em todas as equipas técnicas é necessário ter um adjunto que seja o chamado adjunto de balneário. O adjunto que passe mais tempo com os jogadores, que esteja atento aos sinais que vão dando, que seja capaz de os moralizar e de dar mensagens particulares de motivação a cada um nos momentos certos.

Um treinador não pode estar atento a tudo e por isso precisa de delegar. Esse adjunto de balneário tem que ser alguém que os jogadores respeitem e que seja capaz de ser um símbolo da mística do clube. Capaz de a passar aos que chegam e capaz de transmitir os valores do F. C. Porto. Semedo parecia-me ser uma personalidade algo acanhada para ter esse tipo de papel. Mesmo em termos de projecção externa não é um símbolo que se consiga relacionar com uma franja de adeptos mais jovens.

Só quem está lá dentro do balneário saberá como era a sua relação com os jogadores, se estes o respeitavam e se conseguiam ver nele um confidente. Alguém capaz de animar o grupo mas tem capaz de dar estímulos a cada jogador atendendo às características específicas da personalidade de cada um.

Após mais de meia época a estrutura decidiu intervir. A ideia com que fico é que Pinto da Costa e Antero Henrique reuniram-se com Vítor Pereira e disseram-lhe que ele iria manter-se até ao final da época e que tinha a confiança e o respaldo da estrutura. Mas que teriam que haver mudanças e fazerem-se ajustes. E então Rui Quinta saiu do banco. Rui Quinta passava uma imagem que não seria do agrado da estrutura, e por outro lado via-se mais no momento das substituições e parecia mais um 2º treinador principal. Não tinha o perfil de adjunto que se requer no banco de suplentes, principalmente para um treinador com as características de Vítor Pereira. São dois treinadores que claramente preferem a vertente do treino e é aí que se sentem mais confortáveis.

Rui Quinta é um treinador de campo. Não tanto um observador ou um perito em táctica e em ler o jogo. O adjunto que Vítor Pereira precisava, era alguém que fosse menos interventivo, porque essa função já o Vítor Pereira a preenche, mas que fosse mais atento às questões tácticas e à leitura do jogo. Alguém capaz de estar na sombra, e que possa tirar notas e repare em aspectos individuais e colectivos que o treinador principal no decorrer do jogo não consegue dar tanta atenção.

Não conheço o trabalho de Filipe Almeida para fazer grandes considerações. Mas é um treinador mais jovem, que tem outro tipo de trajecto diferente de Rui Quinta e que apresenta uma postura no banco totalmente distinta. Quinta mais vistoso, Filipe Almeida mais agarrado ao seu bloco de notas e a trocar impressões com Vítor Pereira em momentos pontuais passando as mensagens que lhe parecem essenciais. E este tipo de interacção entre adjunto e principal, são capazes de mudar a face de um jogo.

Por outro lado nota-se que Paulinho tem outro carisma que Semedo não tinha. Paulinho ocupa o lugar agora que era de Pedro Emanuel na época passada. O adjunto do balneário. Aquele que é capaz de ser um líder by example para os jogadores. Um jogador que é um verdadeiro símbolo da mística F. C. Porto e com uma história na instituição quase ímpar em termos de dedicação e empenho.

Com esta reformulação a meio da época, a estrutura do F. C. Porto deu uma lição de gestão desportiva. De como nem sempre uma chicotada psicológica com estrondo é a solução e, como é importante apostar nas soluções internas e tentar dar a volta com aquilo que o clube tem antes de partir para medidas tão radicais a meio da época. O F. C. Porto deu assim uma lição de coragem e sagacidade dentro e fora do campo.