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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A “cola” de Platini

A UEFA está a reflectir sobre uma possível reforma ao formato das competições europeias entre 2015 e 2018, admitiu o presidente Michel Platini, que não exclui a ideia de acabar com a Liga Europa e alargar a Liga dos Campeões. 

"Há uma reflexão em curso para determinar a forma das competições europeias entre 2015 e 2018. Estamos a discutir e tomaremos uma decisão em 2014. Para já ainda não está nada decidido", rematou o presidente da UEFA. 

Platini afirmou ainda não estar preocupado com a possibilidade de ser criada uma liga concorrente à Liga dos Campeões, por parte dos principais clubes europeus. 

"É uma questão que surge regularmente, mas não me inquieta. Em que estádios jogariam? Quem arbitraria os jogos? Não vejo que possa funcionar sem o enquadramento da UEFA", sublinhou. 

In: OJOGO (27/11/2012)

Cada vez mais olho para a UEFA como olho para qualquer Assembleia Nacional onde coabitam os famigerados Políticos. Não há nada como enganar as Federações “mais pequenas” alargando a possibilidade das suas Equipas poderem ter também direito a uma “fatia do delicioso bolo” que é a Liga dos Campeões. 

Convêm não esquecer que as eliminatórias de acesso à Prova Rainha do Velho Continente rendem muito mais milhões do que uma participação positiva na Liga Europa. E entenda-se por participação positiva uma equipa passar a Fase de Grupos da Liga Europa. 

Sempre olhei para a Liga dos Campeões como uma Competição onde participam os Campeões Nacionais de cada País Membro da UEFA. É sem sombra de dúvida a combinação que faz mais sentido e que dá inteira razão ao nome Liga dos Campeões. Para mais os alargamentos que a Champions sofreu nos últimos anos em nada tem beneficiado as Equipas dos novos Estados Europeus, uma vez que o ranking dos Países saídos da Ex-URSS (por exemplo) obriga a que os seus Campeões (e não só) tenham de medir forças com o 4.º Classificado de Inglaterra ou de outra qualquer Liga onde o nível de competitividade é grande e o resultado é sempre o mesmo, ou seja, o 4.º Classificado passa á fase seguinte e o Campeão vai disputar a Liga Europa. 

Entendo que o organismo que tutela o Futebol Europeu sinta uma extrema necessidade de aumentar as receitas com mais patrocinadores, mas daí até se desfigurar por completo uma Competição histórica como a Liga dos Campeões vai uma longa distância.  

Até onde irá a “cola” de Platini?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

¡Visca Barça!: A Lenda

Lendárias são na História certas equipas de futebol. Clubes que, numa determinada era do futebol, pela qualidade do seu jogo, se tornaram marcantes para quem o desporto-rei ama. Dando só exemplos europeus, podemo-nos referir ao Madrid da segunda metade dos anos 50. Ao Ajax dos anos 70, onde Cruyff despontava. Ao Liverpool que arranca em 1975 para o domínio na Europa e morre na tragédia de Heysel dez anos depois. Em suma, clubes que do esquecimento se libertaram. Equipas que se tornaram uma lenda.

Por vezes, com os truculentos anos 90, dominados na Europa pela ideia de um futebol defensivo, mais racional, por equipas italianas e italianizadas, a esperança no surgimento de uma nova lenda no futebol – com um bom e belo futebol - parecia ter sido perdida. Até que, em meados da década passada, começa a despontar uma nova equipa. Um clube, é certo, bem conhecido e já com aura lendária. Mas a aura materializou-se. E hoje o FC Barcelona, oficialmente o Campeão espanhol, Europeu e Mundial, é uma equipa que joga um futebol único.

De início, ao assistir-se a um jogo do FC Barcelona, parece que vemos um futebol simples. Baseado no passe, parece um “meinho” entre amigos. Algo fácil. Quase de uma equipa de amadores mais preocupada em saber passar bem do que em buscar um resultado. Mas, aos poucos, espectadores e, claro, adversários, percebem que este futebol é quase mágico e próprio de uma condição que só de décadas em décadas aparece. É por isso um futebol quase anacrónico, sem tempo, e no entanto é a essência e origem do Futebol. É um autêntico carrossel de simplicidade que esmaga o adversário. Que sabe como colectivo” jogar à bola” de um modo quase perfeito.

Assim, o futebol jogado pelo Barcelona é uma luz nova no futebol europeu. Ao mesmo tempo que algumas equipas históricas decaem da sua luz passada para as trevas da mesquinhez e da raiva, tornando-se aos poucos isoladas da realidade e do amor de quem gosta de futebol, o FC Barça actual cimenta a sua condição histórica e faz acontecimento. Mas o que significa um acontecimento no futebol? É quando, na nossa perspectiva actual, acontece uma “anomalia”, algo que escapa àquela que parece a evolução natural de um determinado momento. Há um antes e um depois no Acontecimento. Uma mudança de paradigma. É aí que se forma a lenda: o que há de novo, aliado a uma temporalidade concreta, que retira todas as dúvidas sobre o seu valor.

Atentemos em alguns factos concretos. Os blaugranas ganharam, nos últimos seis anos, três Ligas dos Campeões (sendo as duas últimas ganhas num estilo muito mais cristalino do que na de 2006, ainda orientados por Rijkaard). Tornaram-se um carrasco permanente do seu directo rival de Madrid.

Encantam com o seu futebol o planeta aliado a uma insaciável sede de vencer. Esta equipa excepcional constitui-se de jogadores também eles excepcionais. E o Barcelona não só os tem como os fabricou, criando assim uma das mais profícuas escolas de futebol do mundo. Messi, Xavi, Iniesta, Fabregas (regressado a casa só este ano, mas jogando como se nunca tivesse saído), Piqué, Puyol e o próprio treinador Guardiola – dois elementos mais velhos – são o resultado, entre outros, de um trabalho de paciência que deu os seus frutos. E que faz os mais cépticos adeptos voltarem a acreditar na magia do futebol.

Muitas vezes foram os pais e os avós da minha geração que nos contaram sobre anteriores lendas do futebol europeu. Houve mesmo um familiar próximo do autor deste texto que foi propositadamente do Porto a Lisboa ver o Ajax de Cruyff jogar nos anos 70. Agora seremos nós que contaremos aos nossos filhos e netos que vimos o FC Barcelona de Messi jogar. A mais recente lenda do futebol europeu.