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sábado, 6 de julho de 2013

Faltou "Coragem" à geração "Talento".

 
Portugal terminou a sua participação no Mundial sub-20 aos pés de Gana, 3º classificado no grupo A da competição. Um rival claramente inferior em termos de talento à selecção portuguesa.
  • Posto isto, o que falhou a esta talentosa geração?
Obviamente que a resposta ínsita no titulo deste texto é redutora. Não faltou apenas coragem. Faltaram disciplina táctica, rigor, concentração e liderança técnica, táctica e estratégica. Faltou treinador para aprimorar esta geração, colocar os talentos ao serviço de um colectivo coeso e organizado.
 
Relativamente à geração anterior, esta geração apresentava mais experiência competitiva, graças às equipas B. Alguns dos jogadores são já opção em equipas da 1ª liga, no caso de Bruma e Ilori são mesmo titulares de um clube como o Sporting.
 Portugal nesta competição partia como um dos favoritos, posição reforçada pelo facto das duas grandes potências Argentina e Brasil não estarem em prova, e por ter um dos maiores talentos desta categoria: Bruma.
 
O problema é que só o talento não chega. Fazendo a comparação entre esta geração e a anterior, repara-se que uma selecção consegue chegar mais longe sendo uma equipa, sabendo esconder limitações através de um espírito colectivo coeso, e de uma liderança forte, do que fiando-se apenas no talento dos seus intérpretes esquecendo-se de se organizar, pensar e respirar em campo como uma equipa.
 
Tiago Ferreira, o único sobrevivente da Geração Coragem, talvez pudesse ter dado alguns conselhos aos colegas acerca do espírito e da capacidade competitiva que uma geração muito menos talentosa e tão pouco valorizada pelo seu próprio país, teve há dois anos.
 
Porventura, a falta de coragem não pode ser imputada directamente aos jogadores. Começa na estrutura federativa e passa pela equipa técnica liderada por Edgar Borges.
Edgar Borges tem como saldo ao serviço da federação, duas qualificações para o europeu de sub 19 mas sem conseguir passar da fase de grupos em ambas as ocasiões. Neste contexto e já com esta equipa, Edgar Borges também deixou escapar a oportunidade de ganhar o Europeu de sub-19 sendo eliminado na fase de grupos em que se encontravam as duas finalistas: Espanha e Grécia.
 
Se a qualidade dos adversários até poderia servir de atenuante, o mesmo não se poderá dizer da desconcentração da equipa que chega à última jornada precisando apenas de empatar com a Grécia e perde a cabeça logo de início tendo um jogador infantilmente expulso, condenando assim a selecção ao insucesso e acabando por ser eliminada, num jogo em que o empate lhe bastava.
 
Como prémio por esse insucesso, a Edgar Borges foi-lhe dada a oportunidade de se manter ao leme desta talentosa geração de jogadores. Geração que tem ainda a vantagem de poder apresentar uma espinha dorsal de jogadores que brilharam todos ao serviços dos juniores do Sporting, sendo campeões nacionais e brilhando numa competição que é uma espécie de liga dos campeões de sub 19.
 
Em sentido contrário, Ilídio Vale, uma velha raposa, e provavelmente um dos maiores nomes da formação em Portugal - cujo mérito nem sempre lhe é reconhecido por não se colocar em bicos de pé-é afastado da selecção nacional sub-20 sendo mandado para a prateleira depois de ter logrado um feito fantástico, levando Portugal a um final de um mundial onde parecia condenado por todos a ir apenas para fazer número.
Tal como na nossa formação enquanto estudantes, temos a possibilidade de trocar de professores quando damos um passo na evolução académica ( do ensino primário para o básico, do básico para o secundário e do secundário possivelmente para o superior), a esta geração lhe faria muito bem ter um novo “professor”. E quem melhor que o mestre Ilídio Vale? Principalmente tendo a possibilidade de apresentar uma autoridade sobre estes atletas reforçada, por ter sido o comandante de uma equipa vice campeã mundial.
 
Ilídio Vale pegou num grupo de jogadores com pouco ritmo de competições profissionais, sem muitas soluções e soube colocar as peças e fazer uma verdadeira equipa, que demonstrava uma concentração competitiva que parecia enganar o bilhete de identidade
  • Á geração talento, sobraram velhos vícios que se perpetuaram com o mesmo treinador: Edgar Borges
Muitas desatenções defensivas (não por falta de opções de qualidade para o sector defensivo, mais por falta de concentração colectiva), um problema crónico de falta de intensidade no momento da transição defensiva e na capacidade de vencer as bolas disputadas, principalmente a meio campo, com jogadores de qualidade técnica superior, mas com pouca intensidade.
 
Contudo, como ponto forte esta selecção apresentava uma enorme vocação e capacidade ofensiva. Uma equipa muito criativa, com um meio campo passivo defensivamente, mas com jogadores de enorme capacidade de passe, um lateral direito de excelência, como João Cancelo e um desiquilibrador que marca as diferenças como Bruma.
 
Edgar Borges com isto tudo não fez o que se espera de um treinador. Não potenciou o bom e escondeu o mau. Claramente Edgar Borges não soube ler os sinais, o que é grave para quem acompanha estes jogadores há alguns anos.
 
Portugal entrou no primeiro jogo contra a Nigéria a todo o gás, marcando dois golos e dando um festival de futebol ofensivo. Demonstrou depois a sua pior face quando consentiu o empate dos nigerianos, mas ainda assim acabou por vencer no final.
 
Uma característica desta equipa. Uma equipa que gosta de jogar para a frente, que pensa principalmente no momento ofensivo, e que se desconcentra e é pouco intensa quando perde a bola, e que tem dificuldade em guardar resultados, porque no seu adn está a procura constante do golo.

Edgar Borges entendeu que o segredo para compensar os erros defensivos, seria mexer na estrutura ofensiva da equipa. Equivocou-se enormemente, porque nem a equipa passou a defender melhor, como ainda se sentiu claramento condicionada naquilo que era o seu ponto forte, a organização ofensiva e as transições ofensivas.

Logo no jogo com a Coreia do Sul, Edgar Borges decidiu retirar Cancelo para colocar Oscar Dabo um lateral direito menos ofensivo, para assim poder supostamente atacar com menos jogadores.

Portugal na mesma colocou-se em vantagem, na mesma deixou-a fugir, mas a diferença é que jogou pior, atacou menos, teve menos iniciativa e acabou mesmo por empatar, quando com outra atitude e soltando a equipa mais para o jogo, teria ganho o jogo. Com Cuba, voltou uma estrutura ofensiva normal, a explorar os corredores laterais e a assumir mais o jogo e veio uma goleada.
  • O jogo com o Gana
Para o jogo com o Gana, já a eliminar, eis que Edgar Borges demonstra a tal falta de “coragem”. Como uma velha escola de treinadores portugueses, preferiu deixar a coragem toda nas palavras na sala de imprensa ao dizer que não se chateava que o resultado fosse 10-9 para Portugal...
 
Já no campo a mensagem para os jogadores foi totalmente distinta. Decide colocar Ié a lateral direito. Uma opção a fazer lembrar uma de Queiroz no Mundial da África do Sul em que coloca Ricardo Costa a lateral direito tendo dois laterais de raiz no banco. Resultado? Derrota e golo marcado pelo lado justamente do lateral adaptado.
 
Esta mania de alguns treinadores, que reforçar a defesa com um central adaptado a lateral é a fórmula mágica para se defender melhor. Pelo contrário. Um central não conhece as rotinas do posto, tem dificuldades quando tem que fechar por dentro, já para não falar que não sabe como se posicionar em organização ofensiva e muito menos tem a capacidade para dar largura e aparecer a cruzar.
 
Edgar Borges passou basicamente para a equipa a mensagem de que não confiava neles no momento defensivo e que por isso deveriam mudar a sua forma de jogar para não sofrer golos. Assim decidiu amputar o lado direito de Portugal, que deixou de poder carrilar jogo, pois Edgar Ié obviamente não consegue dar a dinâmica ao flanco que dá um João Cancelo.
Mais grave ainda é Edgar Borges decidir prescindir de um dos maiores destaques do Benfica B e desta geração. Passou a barreira do incompreensível quando mesmo a perder Edgar Borges, faz duas alterações ao intervalo mas nenhuma delas incluía a entrada de Cancelo que assistiu do banco Portugal a dar a volta ao jogo (de 0-1 para 2-1) para depois acabar em menos de 15 minutos por sofrer dois golos em falhas graves da defesa. O do empate, curiosamente pelo lado onde defendia Ié…
 
Edgar Borges puxou o freio ofensivo de uma equipa que não sabe defender, e que a sua melhor defesa seria exactamente colocar o pé no acelerador e atacar e dominar os jogos, para que pudesse marcar mais golos do que sofrer.
 
Edgar Borges tinha um problema a meio campo por ter jogadores como João Mário, André Gomes ( que só se lembrou de aparecer no Mundial no último jogo) e Agostinho Cá, que privilegiam mais a posse de bola, e que não são dados a grandes correrias atrás da bola.
  • O que fazer?
Assumir o jogo. Ter bola. O que fez a Espanha quando começou a fabricar jogadores como Xavi, Iniesta, Fabregas e companhia, que gostam de ter a bola no pé em vez de correr atrás dela? Começaram a jogar em posse, pois jogar um jogo partido em constantes transições seria incómodo para as características que a Espanha tem.

Edgar Borges não soube conciliar o futebol de transições através de Bruma, para um futebol mesclado, capaz de ter a bola e sem que por isso tenha que deixar de acionar Bruma em momento de transição.
 
O problema na defesa não era dos jogadores da defesa, nem se resolveria se jogassem com 4 centrais em cima da linha de golo. Era um problema colectivo, que devia ter sido corrigido a começar pelo ataque.
Trata-se de características dos jogadores. Se temos um meio campo pouco pressionante, então devia ter sido colocado Ricardo Esgaio a extremo. Esgaio faz todo o corredor, começou a sua formação como lateral e ainda pode jogar a interior direito. Daria a rapidez e dinâmica necessária em momento da perda da bola e organização defensiva, podendo ajudar no momento da recuperação da bola, libertando Bruma no flanco contrário.
 
Outro jogador que claramente saiu negligenciado desta competição e que poderia ter sido aproveitado para solucionar alguns dos problemas colectivos foi Tozé do F. C. Porto.
 No Porto b jogou a extremo, mas é um médio interior, que é rápido, tecnicista, mas que tem muita garra e que não desiste de uma bola. Um médio que poderia muito bem aparecer no onze ou por troca com André Gomes, ou até mesmo por Ricardo Dias/ Agostinho Cá, recuando André Gomes ou João Mário no terreno. Daria maior nervo ao meio campo da equipa e ainda a capacidade de remate de longa de distância.
 
Edgar Borges também não foi inteligente ao estar constantemente a variar entre duplas de centrais. Tiago Ferreira, Ilori e Ié, são 3 potenciais titulares, é um facto. A vida de Edgar Borges no euro sub-19 ficou mais tranquila em termos de decisão com a lesão de Ié que assim lhe fez não ter outra opção que não escolher a dupla Ferreira/ Ilori.
Neste Mundial com o regresso de Ié, faltou a Edgar Borges a coragem para optar por uma dupla e dar-lhe confiança ao longo do torneio. No jogo com o Gana deu a ideia que para não ter que optar, e para sentir que estaria mais seguro atrás, escolheu jogar com os três centrais, pensando que assim defenderia melhor.
 
Para isso, abdicou do lado direito da equipa durante todo o jogo, tentando depois compensar com a entrada de Esgaio por Ricardo, mantendo contudo Ié a lateral.
 
É o problema de coragem da estrutura federativa. Coragem para não recompensar a incompetência e coragem para se livrar de tradicionais porreirismos e compadrios. P. Bento é seleccionador e o amigo Rui Jorge vai para seleccionador sub-21. Resultados? Nada. O que se faz em relação a isso? Nada.
Nos sub-20, optou-se por mandar Ilídio Vale para a prateleira para dar continuidade a Edgar Borges.
 
Infelizmente nunca saberemos como seria uma geração com este talento, nas mãos de um treinador que com muito menos conseguiu muito mais. O que sabemos é que nesta fase de amadurecimento competitivo, faria bem a Bruma, Ilori, André Gomes e companhia, um treinador que lhes desse bons ensinamentos sob o ponto de vista táctico, de organização defensiva e que fosse capaz de criar um espírito de grupo forte.
 
Se calhar esta federação não merece profissionais como Ilídio Vale. Enquanto assim for, pode haver muito Talento, faltará sempre a Coragem.

 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mundial sub 20 : Da geração coragem à geração talento. ( 2ª parte)

  • O efeito Belenenses na Geração Talento
O Belenenses acabou por ter um efeito curioso nesta geração. O clube de belém fez um campeonato extraordinário na II Liga e com alguns jovens talentos portugueses. A sua equipa directiva e técnica apostou nalguns jovens desta faixa etária no momento da constituição do seu plantel. Curiosamente foi no Belenenses que algumas decisões sobre a equipa a apresentar neste Mundial começaram a ser tomadas.
 
Primeiro na hora de afastar alguns atletas até então titulares na selecção. O caso mais claro é o do guarda-redes Rafael Veloso, que enquanto júnior do Sporting era o titular da equipa, mas que ao transferir-se para o Belenenses perdeu o comboio, por ter sido suplente durante toda a época do britânico Matt Jones. Tal serviu para dar espaço ao aparecimento de José Sá do Marítimo B, que acabou por ser uma das maiores surpresas apresentadas por Edgar Borges nesta competição. Principalmente quando Sá partiria atrás da dupla de guarda redes que tinha estado no euro sub-19. A dúvida sempre havia sido entre Veloso guarda redes do Sporting e Varela guarda redes do Benfica.
 
Veloso saiu para o Belenenses e perdeu espaço competitivo, e Bruno Varela no Benfica b teve que dividir a baliza com Mika ( curiosamente uma das figuras de destaque da Geração Coragem), e viu assim um terceiro elemento como José Sá aparecer de surpresa e roubar o lugar que parecia destinado a uma luta a dois. 
O mesmo aconteceu com o lateral esquerdo Daniel Martins. Foi titular à frente do lateral esquerdo do Sporting, Mica, durante o euro sub-19, conferindo assim um maior equilíbrio entre jogadores de Sporting e Benfica, mas que ao transferir-se para o Belenenses perdeu não só a titularidade como atá a convocatória para o Mundial, após ter efectuado apenas um jogo pelo Belenenses na época transacta. Quem saiu beneficiado foi o lateral do Sporting B, Mica, que assim assumiu a titularidade. Não se nota por aí grande diferença. A posição de lateral esquerdo é uma das pechas desta equipa, uma vez que não há um titular indiscutível como à direita onde Cancelo é mesmo uma das figuras da equipa.
 
Mas o Belenenses não retirou apenas o sonho do Mundial a alguns sub-19, concedeu o sonho a outros. Caso disso é Ricardo Dias, que no euro sub-19 era suplente e agora parte na frente de Agostinho Cá no onze inicial.
Parece-me uma decisão errada por parte de Edgar Borges. Agostinho Cá acompanhou Ié logo após o campeonato nacional de juniores numa transferência polémica para o Barcelona, quando tinham também o Inter de Milão com o negócio praticamente fechado.
Para a evolução de ambos, foi um passo complicado, pois Cá tem jogado poucos jogos no Barcelona B e tem sentido as naturais dificuldades de adaptação. Contudo, a transferência para o Barcelona já diz muito da qualidade de Agostinho Cá. Era um dos jogadores de peso desta geração. Conseguia dar o equilíbrio ao meio campo. O tal meio campo que tem o defeito de ser demasiado macio, com Cá ganhava um jogador mais forte no duelo físico e ao mesmo tempo que serve melhor de tampão aos contra ataques adversário graças à sua qualidade de posicionamento, mas ainda oferecia a capacidade de saber sair a jogar com critério e pautar bem os ritmos de jogo.
 
No jogo com a Nigéria, a equipa portuguesa que se deixou empatar e ia perdendo o meio campo, voltou a ganhar as rédeas do jogo quando Cá entrou em jogo.
 
Outro médio que saiu beneficiado com a excelente época do Belenenses, foi Tiago Silva que foi titularíssimo no meio campo do Belenenses e que viu assim nascer a oportunidade de entrar na convocatória, embora ainda sem a oportunidade de se fixar entre os titulares, talvez por ter chegado mais tarde a uma equipa já formada.
  • Problemas/ Soluções
Edgar Borges tem a enorme vantagem de encontrar um grupo com talento mas também com rodagem de futebol sénior, com jogadores que transitaram para as equipas B que aqui demonstram já ser uma aposta certíssima para o futuro do futebol português. Um espaço competitivo importantíssimo para que uma série de atletas não se percam ou sejam obrigados a emigrar cedo demais como aconteceu a jogadores da geração anterior como Danilo e Pelé ou ainda Mário Rui.
O problema maior reside talvez no facto desta geração carregar a pressão de ser encarada como uma das favoritas ao contrário da geração anterior que foi para o Mundial sem qualquer tipo de pressão.
A vantagem é que esta geração já se bateu com os campeões da Europa, a Espanha, no euro sub-19 e apesar de não ter conseguido ser superior, demonstrou que pode disputar o jogo pelo jogo com os melhores. Há a enorme vantagem de nesta competição não estarem as duas maiores potências mundiais na categoria: Brasil e Argentina.
Portugal parte como favorito, porventura será a 3ª grande favorita após Espanha e França. Portugal aparecerá na mesma linha ou ligeiramente à frente da Grécia, vice campeã da Europa e do Uruguai, campeão sul americano.
Tacticamente o desafio maior de Edgar Borges será melhorar o processo defensivo desta equipa. A Geração Coragem era menos rodada e menos experiente mas em termos defensivos conseguia apresentar uma maturidade superior que a Geração Talento que parece fiar-se em demasia na sua qualidade técnica, mas que acaba por se deixar surpreender na defesa, cometendo erros por vezes algo infantis em termos de posicionamento.
 
Pode-se pensar que se a defesa falha é porque os defesas são maus. Não é o caso. Individualmente Portugal apresenta bons valores. João Cancelo, até à tragédia pessoal que viveu, era a maior promessa do Benfica B, e um lateral direito que podia até espreitar oportunidades na equipa principal.
No centro da defesa Ié é já jogador do Barcelona, e não é por acaso, pois tem uma capacidade física interessante, falta-lhe talvez uma maior capacidade de concentração. Tiago Ferreira é a grande promessa da formação do F. C. Porto mas esta época na equipa B não foi a melhor para ele, sente-se que precisa de novos desafios uma vez que tem estagnado a sua evolução.
 
O que dizer da qualidade de um sector, quando um jogador titular do Sporting como Tiago Ilori é suplente…?
São 3 jogadores para dois postos. Edgar Borges deu prioridade à dupla original: Ié e Ferreira, que foi alterada no Euro sub-19 apenas devido à lesão de Ié. Tratava-se de optar pelo entrosamento da selecção entre Tiago Ferreira e Ié, ou apostar pelo entrosamento da dupla de centrais titular dos juniores do Sporting campeões nacionais. Ié e Ilori.
 
Borges não quis melindrar o equilíbrio do grupo ao retirar a titularidade a Tiago Ferreira, único elemento titular do F. C. Porto e que é o jogador que já tem a experiência de um mundial nas pernas. Contudo, e atendendo às falhas defensivas no jogo com a Nigéria, não seria de desaproveitar a tarimba que Tiago Ilori ganhou esta época ao assumir a titularidade na equipa do Sporting.
 
Os factos são estes: Tiago Ferreira não fez uma época brilhante no Porto b, e Tiago Ilori foi titular do Sporting na 1ª Liga.
Mesmo em termos de estrutura da equipa seria interessante ter 3 elementos da defesa mais dois no meio campo que tivessem jogado juntos durante mais que uma temporada. Uma estrutura central com: Ilori, Ié, Cá e João Mário.
 
Na lateral esquerda mantem-se um problema já algo crónico no futebol português. Mica é um jogador razoável apenas, tal como o era Daniel Martins. Não há uma solução clara para a posição que assegura uma qualidade ao nível do resto da equipa.
 
No sector do meio campo, o problema é a tal passividade no momento defensivo. Quando a equipa tem bola, tem jogadores capazes de criar e até aparecer em zonas de finalização, o problema é no momento da organização defensiva. No momento da transição defensiva (momento da perda da bola) não é tão grave, porque na defesa existem elementos com rapidez de execução, capazes de acorrer aos fogos que vão aparecendo.
 
A equipa sofre mais em organização defensiva. Quando o adversário tem a bola, e obriga a equipa a ter que se posicionar defensivamente. Nesse momento, a passividade do meio campo e algumas desatenções no sector defensivo, permitem que os adversários consigam criar perigo em ataque organizado. Tal não será tão problemático com as equipas que Portugal encontrará na 1ª fase pois grande parte delas darão as rédeas do jogo a Portugal, mas será um problema com uma selecção como a Espanha que joga em ataque organizado e usa e abusa da posse.
 
Uma solução possível para a falta de velocidade e dinâmica no meio campo, seria a incorporação e Tozé do F. C. Porto b, um jogador que apesar de ter feito grande parte da época a extremo, é um jogador que cai melhor no espaço interior e que poderia jogar no meio campo, recuando para isso João Mário um pouco mais no terreno para junto de Dias. 
No ataque reside o menor dos problemas de Edgar Borges. Tem muitas soluções para as faixas, e tem o craque da equipa que é Bruma que se tem assumido como a figura desta selecção.
Em relação ao europeu de sub-19 Edgar Borges ganhou o reforço Ricardo do V. Guimarães, não hesitando em o incluir no onze titular em detrimento de Ricardo Esgaio do Sporting B. Tal opção prende-se com a excelente época de Ricardo no surpreendente Guimarães.
A lógica que não funcionou para dar a titularidade a Ilori, funcionou aqui para dar prioridade a Ricardo em relação ao até então titular Ricardo Esgaio que fez uma brilhante e goleadora época no Sporting B. Parece-me uma má opção. Ricardo tem qualidade técnica, mas não tem o mesmo entrosamento que Esgaio tem com esta equipa e isso nota-se bastante.
Depois temos que ter em atenção as características dos jogadores que compõe o onze. O problema de passividade a meio campo, pode passar também por fazer algumas alterações no ataque. Esgaio começou a carreira como lateral e subiu para extremo. Ou seja, é um jogador que pode fazer todo o flanco, tem um enorme pulmão, boa qualidade técnica e enorme capacidade na hora de ter que auxiliar o lateral nas tarefas defensivas. Esgaio tem ainda inteligência táctica para se necessário jogar como interior direito.
Para dar mais nervo e velocidade ao meio campo português seria interessante ter Ricardo Esgaio no flanco direito, podendo fechar no meio campo, quando a equipa não tenha a bola e criar assim superioridade no sector conferindo assim, uma maior capacidade de pressão.
Acrescenta ainda Ricardo Esgaio uma excelente capacidade de finalização, uma vez que marcou 17 golos na 2ª liga, cotando-se como um dos melhores marcadores da competição e o melhor do Sporting B.
 
Do trio de ataque do euro sub-19 apenas Bruma sobreviveu como titular para este Mundial. Betinho nem convocado foi, e a titularidade acabou entregue à descoberta Aladje que ganhou o lugar após um bom torneio de Toulon.
 
O atleta do Asprella da 3ª divisão italiana, tem força, velocidade, e é capaz de encostar bem nos centrais adversários mas também tem capacidade para cair no espaço entre o central e o lateral.
É um jogador com boa capacidade de finalização. Não é um avançado tanto de tabelas, é mais um avançado de aparecer no espaço. Faltou-lhe aprimorar alguns aspectos técnicos, para que consiga dar um contributo mais completo para o jogo colectivo da equipa.
 
Edgar Borges errou talvez na convocatória ao deixar duas vezes de fora um avançado mais de área como Betinho. Se na 1ª convocatória se percebeu pela possível aposta em Gonçalo Paciência, aquando da sua lesão não se entende porque a opção recaiu por Cavaleiro que é um extremo que pode jogar no centro, em vez de um jogador que seja avançado centro de raiz como Betinho que marcou 7 golos nesta época ao serviço do Sporting B onde por vezes tinha que dividir o espaço com Diego Rubio.
Ivan Cavaleiro marcou mais golos, mas é claramente um jogador com outro tipo de características. Cavaleiro é contudo incapaz de ser a solução para outro tipo de jogo quando se queira um jogador mais fixo no ataque.
 
Esta selecção em termos de banco tem também boas soluções, desde logo neste jogo com a Nigéria havia: Ilori, Agostinho Cá, Tiago Silva e Tozé ( um dos melhores jogadores do F. C. Porto b).
 
Pena a lesão de Gonçalo Paciência pois seria um jogador que realmente traria soluções diferentes para o centro do ataque da selecção, uma pecha que tem vindo a ser trabalhada.
Para o fim deixo a baliza que encontrou em José Sá uma das maiores figuras da equipa no primeiro jogo, dando assim razão a Edgar Borges que apostou nele à frente daquelas que haviam sido as primeiras opções ao longo do trajecto desta geração os guarda redes: Bruno Varela e Rafael Veloso.
 
José Sá soube aproveitar bem o espaço competitivo no Marítimo B onde assumiu a titularidade a meio da época, bem assim como algum apagamento competitivo de Varela o até então titular da selecção , que esta época quase não jogou pelo Belenenses, ou Bruno Varela que teve que dividir a baliza do Benfica B com Mika.
 
É contudo uma das posições em que Edgar Borges menos tem com que se preocupar. Tem 3 guarda-redes de enorme qualidade, podendo qualquer um deles assumir a titularidade sem tremer. José Sá foi uma agradável surpresa no primeiro jogo e claramente ganhou o posto. 
  • Conclusão
Edgar Borges tem a matéria prima, tem o talento, será que terá a sagacidade que teve Ilídio Vale há dois anos para conseguir fazer um verdadeiro grupo, desta vez com mais talento?
Gerações muito diferentes mas num ponto semelhantes. Quer a Geração Coragem quer a Geração Talento, são provas de que se calhar muitos especialistas da desgraça, deveriam pensar duas vezes antes de anunciar o fim do futebol português a nível de selecções. 

domingo, 23 de junho de 2013

Mundial sub 20 : Da geração coragem à geração talento. (1ª parte)

Começou na passada 6ª feira a participação portuguesa no Mundial sub-20, com uma vitória no jogo inaugural com a Nigéria por 3-2.
 
Esta competição será um barómetro interessante para aferir do futuro da selecção portuguesa. Acima de tudo, é importante para desconstruir umas teses pessimistas de que não há futuro para o futebol português e que a formação não produz talento necessário para assegurar uma renovação. Curiosa esta posição dos arautos da desgraça numa altura em que Portugal há dois anos se sagrou vice-campeão do Mundo (algo que a geração actual da selecção principal nem chegou perto) de sub-20, e após uma boa prova nos europeus de sub-19 que agora chegam à Turquia como um dos favoritos ao título.
  • Geração Coragem- Do quase anonimato à quase glória
Há 2 anos por esta altura, iniciava-se o Mundial na Colômbia. A mesma competição, Portugal com participação assegurada, contudo, o estado de espírito não poderia ser mais distinto.
 
Se esta geração merece os holofotes da fama graças a jogadores talentosos e já mediáticos como Bruma, Tiago Ilori já titulares do Sporting, ou jogadores com lugar já nos planteis dos grandes Benfica e Porto, a geração anterior mereceu pouco mais que a indiferença por parte da comunicação social e do público em geral.
 
Aquela que haveria de ser chamada de geração coragem, partia para o Mundial com uma geração sem grandes feitos nem grandes figuras mediáticas, uma geração composta acima de tudo por jogadores que não tinham qualquer experiência no futebol sénior, outros que já haviam saído do seu país em busca de mais oportunidades para a sua carreira, devido à miopia dos grandes clubes portugueses. O craque, ou jogador mais mediático dessa geração era Sérgio Oliveira, uma promessa adiada do F. C. Porto, que muito cedo se estrou pela equipa principal, estabeleceu uma cláusula de rescisão recorde mas que a partir daí se viu emprestado a clubes inferiores sem nunca se conseguir destacar.
 
Portugal iniciou essa campanha com um empate com o Uruguai. Conseguiu duas vitórias por 1-0 com Camarões e Nova Zelandia, margem sempre curta e sem dar grande espectáculo mas com exibições repletas de entrega, rigor defensivo e um espírito colectivo enorme. Sem ninguém dar por isso, uma selecção em que ninguém acreditava, comandada pela velha raposa da formação o Prof. Ilídio Vale, já estava na fase seguinte e apurada em primeiro.
A partir daí o país começou timidamente a olhar para aqueles miúdos que ninguém dava nada, e que começavam a construir algo inesperado do lado de lá do Atlântico.
 
Nos oitavos de final nova goleada de 1-0 com a frágil Guatemala. Muitos desconfiavam que se tratava de sol de pouca dura, de pura sorte, e que a partir dos quartos-de-final ,Portugal iria baquear facilmente aos pés de selecções de enorme gabarito e tidas como favoritas. Selecções como: França, Espanha, Brasil, Argentina , Colombia ( que para além de jogar em casa contava com um talento chamado James Rodriguez…) ou o próprio México que levava aquela geração que mais tarde se celebraria campeã olímpica.
 
Selecções com talentos em maior quantidade e qualidade que Portugal e todos com experiência já em competições profissionais, principalmente a selecção mexicana e brasileira. Só a partir dos quartos-de-final começaram os jogos da nossa selecção a serem transmitidos pela estação pública portuguesa. Portugal derrota a poderosa Argentina nos quartos-de-final após a lotaria dos penaltis. Nasce aí o epiteto da Geração Coragem. Nas meias-finais Portugal derrota outra grande favorita, a França, desta vez por 2-1.
 
Portugal chega à final com o Brasil com apenas um golo sofrido em toda a competição e acaba derrotado num jogo épico perante uma selecção superiormente comandada por Oscar ( marcou 3 golos nessa final )que é hoje provavelmente o grande jogador brasileiro da actualidade a jogar na Europa. Um jogo em que Portugal levou o Brasil ao limite, e que em que vimos como ainda é possível um colectivo forte e com enorme capacidade de sofrimento, ser capaz de equilibrar e até se colocar por cima num jogo com uma equipa com talentos infinitamente superiores.
 
Uma equipa que tinha como base titular: Mika, Cedric, N. Reis, Roderick, Mário Rui; Pelé, Danilo, Sana/J. Alves, S. Oliveira; Alex e N. Oliveira 
Portugal sem deslumbrar, soube fazer das fraquezas forças ao longo da competição. Não tinha tanto talento como os adversários? Então não tinha problemas em baixar linhas, apostar no rigor defensivo, concentração e acima de tudo num enorme querer. Portugal era fortíssimo na organização defensiva ( algo pouco típico nas equipas portuguesa), e sabia explorar bem os momentos de contra ataque para marcar um golo ( quase sempre graças a N. Oliveira que jogava muito isolado na frente), e defender a magra vantagem.
 
Uma equipa com jogadores sem experiência nos seniores mas que graças à sagacidade de Ilídio Vale conseguia parecer uma equipa de jogadores tarimbados na forma como geria os ritmos do jogo como melhor lhe convinha.
 
Acho curioso quando se fala que P. Bento faz milagres com a actual geração, sabendo que está empatado com uma selecção como Israel… Portugal pode não ter mais uma geração como a de 2004, mas continua a ter obrigação de estar no Mundial, e dá-se ao luxo de deixar de fora das convocatórias jogadores como: H. viana, Manuel Fernandes, Eliseu, Pizzi entre outros.
Acho que se não se deu o devido reconhecimento ao Professor Ilídio Vale. Um homem que dedicou a sua carreira à formação e que é provavelmente dos profissionais mais competentes na sua área de actuação. Conseguiu fazer uma equipa de juniores, desacreditada fazer um país acreditar que poderiam derrotar uma selecção brasileira com jogadores já titulares nos grandes clubes brasileiros e com talentos como Óscar, Danilo, Alex Sandro ( suplente!!), Fernando ( actual titular da selecção principal), Filipe Coutinho, Willian ( Shaktar Donetsk) ou ainda Casemiro que este ano já se estreou pela equipa principal do Real Madrid pela mão de José Mourinho.
Perante isto Portugal contrapôs um sensacional Nelson Oliveira que se transformou no craque da equipa. O jogador que sozinho no ataque colocava a cabeça em água a 3 e 4 defesas. Mas acima de tudo uma equipa muito unida. Um grupo muito solidário e em que se revelaram jogadores de enorme capacidade como Danilo ou Pelé ou ainda um surpreendente Mika que fez uma excelente prova.
  • Pontes entre gerações
Pouco haverá em comum entre as duas gerações. Tiago Ferreira o central do F. C. Porto b e uma das grandes esperanças da formação portista é o elo de ligação entre as duas gerações. O seleccionador é agora Edgar Borges, de forma algo incompreensível desaproveitou-se o contributo de Ilídio Vale.
 
Esta geração já leva o nome da geração talento desde Portugal graças a talentos como Bruma que tem aquecido esta silly season por se ter tornado um dos jogadores mais apetecidos pelos grandes tubarões europeus.
 
Esta geração, ao contrário da da Colômbia, chega à Turquia como uma das favoritas ao título. E tal não se deve apenas ao vice campeonato mundial da geração anterior, deve-se acima de tudo ao percurso desta geração desde os sub-19, e o facto de efectivamente já ter talentos que são naturais candidatos a figuras do torneio.
Há dois anos os portugueses descobriram talentos como Danilo e Pelé que já não figuravam sequer nas equipas portuguesas, ou ainda N. Oliveira que tinha já experiência no Paços de Ferreira mas sem ter chamado muito à atenção. Descobriu-se o guarda-redes Mika que pouco depois mereceu aposta por parte do Benfica.
 
Esta geração chega com jogadores já de cartel. Bruma e Ilori são titulares do Sporting, e a proliferação das equipas B permitiu que uma série de talentos pudesse chegar a este Mundial já com outra rodagem e mais conhecidos do grande público. Caso disso é João Mário capitão e figura do Sporting B, tal como Ricardo Esgaio também ele já estreante na equipa principal e ainda João Cancelo, apontado como sucessor de Maxi Pereira no Benfica e ainda Ricardo que foi figura fulcral do V. Guimarães esta época, ou ainda a promessa André Gomes que esta época mereceu já aposta de Jesus na primeira equipa do Benfica.
As expectativas são hoje mais altas. Prova disso é até o espaço dedicado pela imprensa desportiva a este Mundial, algo que não havia acontecido no de há dois anos. O mesmo se poderá dizer da transmissão dos jogos que agora já se faz desde o 1º jogo e com algum aparato ao contrário de há dois anos atrás.
 
Pontos de contacto entre as duas gerações talvez o facto de ambas as selecções começarem-se a destacar com duas figuras: uma na baliza e outra no ataque. Em 2011 eram Mika e N. Oliveira, hoje são José Sá ( Marítimo B) e Bruma.
  • Tirando estes pontos de contacto, tudo o resto é diferente
Esta Geração Talento tem a enorme vantagem de ser constituída por uma base de um clube, o que sempre ajuda em termos de entrosamento.
 
75% da equipa porventura, é constituída pela equipa de juniores do Sporting que se sagrou campeã nacional há dois anos e brilhou na Next Gen, uma espécie de Champions de sub-19.
 
Esta geração já no anterior Europeu de sub-19 conseguiu a qualificação goleando e esmagando os adversários que lhe saíram ao caminho e chegou também ao Europeu como uma das favoritas.
  • O Euro sub-19
No Europeu caiu num grupo forte com Espanha e Grécia que acabariam por ser as duas finalistas da competição. Soube a pouco o 3º lugar de Portugal no grupo, mais ainda quando se havia conseguido um empate 3-3 com uma geração fantástica de Espanha com Delafoue grande promessa do Barça e Jesé Rodriguez enorme promessa do Real Madrid.
Quando se pensava que o mais difícil estaria feito, Portugal foi surpreendido por uma forte geração grega, num jogo com algum azar pela forma como Portugal ficou reduzido a 10 ainda na 1ª parte e que terminou com a derrota e a eliminação antecipada de uma das candidatas ao título.
 
Portugal ficou pelo caminho, mas ficou claro para quem acompanhou a competição que provavelmente estavam no mesmo grupo as 3 das 4 equipas mais fortes em prova ( a outra era a França que acabaria eliminada por Espanha).
 
Dessa equipa comandada por Edgar Borges, saiu a base para esta selecção de sub-20. Uma ou outra alteração na convocatória, o aproveitar de alguns reforços vindos das experiências no Torneio de Toulon, e jogadores que foram aparecendo entretanto como Ricardo no V. Guimarães. A base dessa equipa de sub-19 era o Sporting campeão nacional de juniores. Mais concretamente 7 jogadores no 11 titular. Os outros 4 jogadores eram 3 do Benfica: João Cancelo, Daniel Martins e André Gomes e um do Porto, o central Tiago Ferreira.
Uma ausência notada nesse Europeu foi o central Ié, entretanto transferido para Barcelona com o seu colega do Sporting Agostinho Cá. Ié seria um dos pilares na defesa mas uma lesão de última hora afastou-o da prova e entregou assim a titularidade à dupla Ilori/Tiago Ferreira.
 
O onze tipo era então: Rafael Veloso, João Cancelo, Ilori, Tiago Ferreira, Daniel Martins na defesa; meio campo com: Agostinho Cá, João Mário e André Gomes; ataque entregue ao trio sportinguista: Bruma, Esgaio e Betinho.
 
Para o Mundial sub-20 Edgar Borges pôde aproveitar um torneio de Toulon que serviu para confirmar a qualidade de alguns jogadores para entregarem este grupo que já vinha formado. Reforços cirúrgicos para algumas lacunas detectadas. Uma delas no lugar de ponta de lança, onde Betinho apesar de competente, não era um jogador à altura dos extremos que o serviam. Daí que Gonçalo Paciência, um finalizador de créditos firmados ao longo de toda a sua formação no F. C. Porto se tenha constituído como opção.
 
Outra opção que surgiu do bom trabalho de prospecção da FPF, foi Aladje, jogador natural da Guiné Bissau e que se encontrava escondido na 3ª divisão italiana.
Infelizmente Gonçalo Paciência perdeu a oportunidade de estar no Mundial devido a uma lesão (lesões que o têm impedido de explodir como seria previsto). Assim sendo a opção de Edgar Borges recaiu sobre Ivan Cavaleiro. Jogador do Benfica b, que havia sido opção no Euro sub-19. Um jogador possante fisicamente mas que não é um jogador de área, é antes um extremo que pode aparecer na área para finalizar.
 
Tratou-se de uma opção algo discutível, tendo em conta que Edgar Borges optou assim por deixar de fora Betinho, titular desta selecção nos sub-19 e que conhece bem grande parte dos companheiros e que até se fala que pode vir a integrar o plantel principal do Sporting.
  • Diferença de modelo e postura em relação à Geração Coragem. Quais são as grandes diferenças entre esta geração e a que se sagrou vice- campeã do Mundo na Colômbia?
 Começamos logo no modelo de jogo. O 4-3-3 mantém-se tal como a força matriz de todas as selecções jovens, contudo este é um 4-3-3 mais claro e ofensivo. O 4-3-3 de Ilídio Vale, por vezes se transformava num 4-4-2 disfarçado, uma vez que se sentia que havia que reforçar o meio campo perante a maior qualidade dos adversários. Assim, libertava-se Sérgio Oliveira para jogar aberto na esquerda mas com instruções de fazer movimentos interiores e em momento defensivo, juntar-se ao trio do meio campo, deixando Alex mais aberto na outra ala, e um N. Oliveira com instruções para segurar os defesas mas com muitos movimentos da faixa para o meio.
 
Este 4-3-3 aposta num ataque mais criativo e móvel, com jogadores como Bruma, Ricardo e a descoberta Aladje.
 
O que esta geração sobra em talento, perde contudo em capacidade colectiva e organização. Nota-se a falta de maior rigor e concentração defensiva, bem assim, como a ausência de alguma capacidade de trabalho no momento da recuperação da bola.
 
Acima de tudo, o meio campo apresenta características totalmente diferentes. Enquanto a Geração Coragem tinha dois médios com uma enorme capacidade de pressionar o adversário e de recuperação e desarme com Danilo e Pelé. Esta geração tem um trio de meio campo, com mais criatividade, melhor capacidade de passe, mas com jogadores pouco intensos, que jogam quase de pantufas a meio campo e apresentam dificuldades na hora de ter que recuperar bolas, e serem fortes no desarme.
 
Gostam de ter a bola no pé, mas sofrem quando têm que sair a pressionar e ganhar os duelos.
João Mário é o cérebro da equipa, tem uma enorme visão de jogo e qualidade de passe muito boa, mas não é um recuperador, não é um carregador de piano. André Gomes do Benfica , também ele que gosta de ter a bola no pé e organizar o jogo ofensivo mas que é algo lento e passivo no momento defensivo.
 
Para equilibrar o meio campo defensivamente, Edgar Borges, optou no jogo inaugural com a Nigéria por Ricardo Alves do Belenenses.
 
(cont)

domingo, 8 de julho de 2012

O futuro da selecção nacional e do futebol português.(parte 1)


Chegado o fim do Euro 2012, após uma boa participação portuguesa, caindo nos penaltis para a campeã do Mundo, chegou o momento do balanço.

Se antes do Euro 2012, muitos já decretavam quase o fim da selecção nacional, o Euro 2012 deu para calar alguns desses críticos e velhos do Restelo, autênticos arautos da desgraça que só vivem de deitar abaixo o futebol português. São como aqueles críticos de cinema que para se fazerem notar gostam de dizer mal do filme que viram, ainda que até tivessem gostado de o ver. Por mais que Portugal seja 5º no ranking da Uefa a nível de clubes, e mesmo com um Braga a chegar a uma final europeia, são os primeiros a falar de como o nosso futebol é fraco, a nossa liga não presta e de de como não temos futuro devido à nossa fraca qualidade... Depois do descanso do Euro 2012 e sem muito que dizer de uma boa participação portuguesa, logo apareceu nova teoria da desgraça do nosso futebol...
  • A falta de sucessão
Os nossos jogadores agora até são aceitáveis e temos um melhor do Mundo, mas depois desta geração vem o vazio… Nada de novo, o mesmo se dizia do pós geração de ouro, e o que vimos foi o surgimento de um Porto campeão da Europa com uma base de jogadores portugueses e o aparecimento para a selecção nacional de valores como: Ricardo Carvalho, Bosingwa, Costinha, Maniche, CR7, Quaresma, Nani, Moutinho, Coentrão etc.

Compreendo que se deve alertar para os problemas da formação em Portugal. Mas existe uma linha (e agora esta expressão está tão na moda) que separa os problemas estruturais da formação e aquilo que é a qualidade do trabalho que por lá se faz.

Os técnicos portugueses são bons. Dos melhores da Europa. O boom que se deu com Mourinho deu-lhes visibilidade… Mas em termos de trabalho na formação tivemos sempre excelentes profissionais que trabalhavam na sombra e que por isso não são tão mediáticos mas que fazem trabalhos extraordinários no futebol de formação. Tudo começou com Carlos Queiroz (que infelizmente actualmente apenas é recordado pelo seu percurso na selecção principal), passou por Jesualdo Ferreira, sofreu um ligeiro interregno mas continuou com Ilídio Vale, António Violante e agora Edgar Borges. Nomes pouco conhecidos do grande público mas que são um exemplo em termos de treino dirigido à formação de atletas.

Depois temos a qualidade dos atletas. Essa não desapareceu. Portugal tem apenas 10 milhões de habitantes e ainda assim, continua a ter selecções que se qualificam para os grandes torneios e fazem boa figura. 

Existem uma série de chavões e de ideias feitas quando se quer falar de futebol de formação. É dizer que o futebol português está em risco porque os grandes têm muitos estrangeiros e, por outro lado, a diminuição de qualidade do jogador português. Obviamente que no melhor dos mundos deveria encontrar-se forma de que na formação dos 3 grandes jogassem mais portugueses, mas a verdade é que os factos provam que continuam a sair bons jogadores da formação dos 3 grandes com a nacionalidade portuguesa. O facto de se formar também estrangeiros não é impeditivo que se formem, e bem, jogadores portugueses. Não quer dizer que os que tenham qualidade não apareçam. Prova disso é o Barça e o Madrid que são das maiores canteras de Espanha e que têm servido as selecções jovens espanholas mas que também têm estrangeiros em todos os seus escalões. Por vezes até espicaça mais a competitividade e faz com que o jogador espanhol evolua mais.

Mais que tudo, parece-me uma inconsciência que se diga que existe um vazio geracional após a actual geração da selecção principal de Portugal. Tudo porquê? Porque não temos outro CR7? Mais me espanta que quem faça esse tipo de afirmações sejam jornalistas que se dizem tão entendidos de futebol e que teriam a obrigação de estarem atentos ao percurso das selecções de formação. Portugal deu vários passos atrás em termos de formação no reinado do Sr. Scolari. Por essa época, Gilberto Madail deixou o futebol de formação abandonado e não havia por parte do Sr. Scolari qualquer tipo de preocupação em assegurar o futuro do futebol português. Ele sempre se demonstrou mais preocupado em assegurar o seu próprio futuro e foi isso que fez.

Contudo, após esse período em que Portugal claramente baixou de escalão no que à formação diz respeito, passando de ser tradicionalmente uma das selecções mais fortes, para nem sequer se qualificar para fases finais… Depois desse período como referia, e já com Queiroz ainda que aos repelões, retomou-se o trabalho da formação no seio da FPF, e um projecto foi sendo consolidado, principalmente por Ilídio Vale que germinava uma geração para surpreender os senhores do futebol em Portugal. Assim nasceu a denominada “geração coragem”. Um grupo de jogadores que Ilídio Vale reuniu, trabalhou-os e fez deles um colectivo forte, capaz de lutar contra selecções com valores individuais infinitamente superiores. Aí começou a haver uma pequena alteração de paradigma na formação em Portugal. Algo que já vem dos clubes, dos jogadores e principalmente do treinador português. A capacidade de se adaptar, e de trabalhar com menos meios mas com capacidade de conseguir grandes resultados.

Um país pequeno como Portugal tem duas soluções: ou espera sentado por uma geração de ouro espontânea (e não foi o caso da de Queiroz que foi fruto de muito trabalho), ficando depois anos e anos como uma selecção fraca, ou então provoca a evolução do seu jogo para que os seus atletas saiam com uma cultura táctica, e uma ideia de colectivo forte, capaz de superar adversários com grandes valores individuais. Em vez de se fortalecer o jogador português enquanto mero produto, tenta-se valorizar o jogo português e dar-lhe um upgrade. Criar um modelo de jogo, no qual assentem valores colectivos fortes que sejam transversais a todos os escalões de formação, para que depois esses jogadores possam chegar à selecção principal já num modelo de jogo bem trabalhado e não apenas num só sistema, para dar uma aparência ténue de continuidade.

Foi assim que a França começou por se tornar uma potência na formação e foi por aí que se assistiu a este crescimento da Espanha. Primeiro é fundamental que se trabalhe bem nos clubes, depois cabe à federação criar um projecto sustentado transversal a todas as camadas jovens e escolher técnicos capazes de levar a cabo esse projecto e que se identifiquem com o modelo apresentado.

A “geração coragem” era antes de Ilídio Vale mais uma geração perdida como tantas outras após o consolado Scolari. Jogadores que tinham algum talento, mas sem nenhum fora de série como outrora. Caminhavam para o esquecimento. A última geração campeã da Europa era a de sub-17 de Vieirinha, Bruno Gama, Helder Barbosa, P. Machado e que tinha no banco um Moutinho e como central um M. Veloso. De lá para cá não havia nada. Mas essa foi porventura a última geração do velho estilo da formação do futebol português. Talento puro. Juntar jogadores muito talentosos, principalmente nas alas, com elevada qualidade técnica e fazer com que o nosso jogo dependesse mais de rasgos individuais do que propriamente de uma cultura táctica forte. Como havia uma série de talentos, principalmente nas alas, a ideia passava por simplesmente criar um modelo que pudesse libertar o talento desses atletas.

Ilídio Vale não tinha jogadores com essas características. No entanto tinha jogadores interessantes e um grupo que bem trabalhado poderia dar frutos. E foi isso que se fez. Portugal passou de ser goleado, a chegar ao Mundial com uma organização defensiva inapelável e fortíssimo nas transições, principalmente com a grande referência no ataque: Nelson Oliveira. Foi o espelho daquilo que poderá ser o futuro do nosso futebol. Extremos interessantes mas longe do protagonismo de outrora de um CR7 ou de um Quaresma, ou mesmo Vieirinha e Helder Barbosa. A força desta geração contruida por Ilídio Vale residia no colectivo e na sua maturidade táctica.
  • Portugal está a formar menos extremos e mais médios e laterais
Continua a faltar-nos o ponta de lança. Uma pecha na nossa formação. Mas numa altura em que tanto se fala de falta de soluções no meio campo da selecção, a verdade é que o que mais tem saído da formação têm sido médios. Não são é Decos e Rui Costas, pura e simplesmente porque o 10 clássico tem tendência para desaparecer. Agora saem médios completos que defendem e atacam, e que fazem boas compensações mas sem assumirem uma batuta de maestros. A prova desta proliferação de médios está na selecção de sub-21 que tenta apurar-se para o europeu da modalidade e que alterou o sistema táctico do 4-3-3 que toda a formação e a selecção principal usam, para um 4-4-2 para melhor aproveitar a quantidade de médios que tem nas suas fileiras.

O facto é que fazendo das fraquezas forças, e apostando num futebol de transições que é cada vez mais a cara do futebol português, Portugal esteve perto, muito perto de voltar a ganhar um Mundial sub-20. Perdeu no prolongamento para um Brasil que tinha no seu 11 jogadores que por falta de concorrência jogam já todos nos melhores clubes brasileiros a titulares em jogos de elevada pressão, enquanto que os nossos jogadores jogavam na 2ª liga e alguns ainda nos juniores…

Por isso parece-me estranho como se atirar para o ar a ideia de que não há jovens talentos a surgirem e que a selecção nacional caírá um vazio… Como se pode dizer isso quando somos os actuais vice-campeões mundiais de sub-20 e o 2º melhor jogador desse torneio até já é convocado para a selecção principal…?
  • Por outro lado apareceu agora nova geração que dará que falar.A que está a disputar o Europeu de sub-19, liderada por Edgar Borges
Não tem ainda nenhuma alcunha como a anterior, mas quem está por dentro do futebol de formação já há muito ouvia que esta geração de sub-19 comandada por Edgar Borges tinha tudo para igualar ou até superar os feitos da "geração coragem". Por muitos era até apontada como melhor. Com melhores jogadores, capazes de assumir mais o jogo, e de ter um estilo mais ofensivo.

Faltava a prova dos nove que era uma grande competição. Mas a água na boca foi ficando desde que grande parte dos jogadores que fazem parte desse grupo fizeram uma excelente campanha na Uefa Next Gen, uma competição sub-19 de clubes que se assemelha a uma espécie de champions league de sub-19, e onde a equipa do Sporting inicialmente comandada por Sá Pinto deu que falar e chegou quase à final, caindo apenas aos pés do Inter.

No campenato nacional foi-se assistindo também a uma série de bons jogadores do Benfica e do Porto. Edgar Borges começou a trabalhar então na geração que iria suceder à geração coragem de Ilídio Vale. E a verdade é que a campanha de qualificação para o Europeu da categoria foi simplesmente demolidora. Muitas goleadas, qualidade de jogo acima da média e uma reputação no meio futebolístico que foi sendo construída. Tratou-se da selecção mais goleadora da fase de qualificação.

Contudo faltava a confirmação da sua qualidade numa grande prova que seria o Europeu. Competir com outras selecções de elevado gabarito. Portugal ficou incluíudo no grupo da Espanha (campeã) que havia sido carrasco da geração anterior, que não obstante ter chegado mais longe no Mundial de sub-20, no Europeu anterior haveria perdido para a Espanha, tendo ficado assim pela fase de grupos. Para além da Espanha temos Estónia ( a organizadora do europeu e a equipa mais fraca do torneio) e Grécia (que começa a ter bons resultados no futebol jovem) no nosso grupo.

Portugal estreou com a Estónia e logo ganhou 3-0, fazendo uma exibição afirmativa mas ainda com algumas falhas fruto de algum nervosismo e ainda sem aquela perfume que se havia visto nos jogos de qualificação. O grande teste seria com a Espanha dos craques Jesé Rodriguez (a maior promessa da cantera madridista e que já vem trabalhando com a primeira equipa), e ainda Gerard Deloufeu, a maior promessa de La Masia, a cantera catalã que tão bons jogadores tem dado à selecção espanhola.

Ora assistiu-se a um grande jogo. Com alternância no resultado e que acabou com um 3-3 final,após a equipa das quinas recuperar 3 vezes de uma situação de desvantagem. Um equílibrio de forças tal como havíamos visto nos principais, embora com mais futebol ofensivo de parte a parte. Por outro lado resultava claro que Espanha, tal como na selecção principal, dispõe de mais e melhores soluções que nós. Mas foi aqui que ficou a maior mensagem para o futuro do futebol português. A força do colectivo. Esse é o nosso futuro. Portugal sub-19, tal como a selecção principal, conseguiu com menos individualidades e menos recursos equilibrar o jogo e bater-se com uma das maiores potências mundiais.

Espanha já nos sub-19 tem o mesmo modelo da principal. Muito toque de bola, jogadores muito evoluídos tecnicamente, mas tem algo a mais que é a profundidade ofensiva. Por outro lado ainda lhe falta afinar o momento da transição defensiva. Contudo é um exemplo de trabalho de formação. Ao longo do jogo, a maior parte das indicações que se ouviam do banco espanhol eram sempre as mesmas “tocala, tocala”. Ou seja, pedia-se aos jogadores que tivessem a posse de bola, que a tocassem até não poder mais, para assim controlar o adversário. É um modelo de jogo consolidado que já vem desde os escalões mais jovens. Depois poderá discutir-se se é esse o modelo mais correcto ou não, mas é de salientar este trabalho.

Esse deve ser o nosso caminho e tem sido bem feito pelos excelentes treinadores que temos na nossa formação quer em clubes quer na FPF. Foi importantíssimo acabar com os "jobs for the boys". Durante algum tempo, enquanto alguns treinadores com créditos firmados na formação viram os seus contratos extintos, os novos selecionadores nacionais não eram necessariamente experts do futebol de formação, mas sim ex-jogadores da confiança ou do técnico principal ou dos líderes federativos. Felizmente voltou-se ao bom caminho e trouxeram de volta não os nomes mais sonantes de ex-jogadores, mas sim aqueles que melhor trabalham em Portugal no futebol de formação. Fundamental a incorporação de Ilídio Vale que estava há anos na formação do F. C. Porto mas que era claramente dos melhores em Portugal e era necessário na FPF para o bem do futebol português. Agora para além de selecionador dos sub-20 ele tem um cargo de supervisão de todos os escalões de formação. e o trabalho já tem dado frutos nos mais diversos escalões. Até os sub-15 que estão agora a ser formados já demonstram qualidade, e nota-se que há um projecto que não acaba quando muda a geração de jogadores.